quinta-feira, 29 de agosto de 2019

AMOR DE VELHOS - À CAMILO




                                                                                                  Filomena Leal


Foi noticiado em Jornais portugueses e ingleses.Uma história verídica que emocionou muita gente. 
Trata-se de Michael e Susan Brown que se encontravam no Funchal, a bordo de um cruzeiro turístico de 5 semanas. Quase no final da viagem, discutiram acaloradamente e resolveram regressar  a casa. Compraram bilhetes de avião e foram para o aeroporto. Uma vez aí, Susan deixou de ver Michael e pensou que ele teria voltado para o barco (ele entretanto, fôra para Inglaterra noutro voo).
Correu então para o paquete, mas não chegou a tempo, pois já tinha zarpado. Como ainda estava à vista, Susan, alucinada, (tinha mais de 60 anos) atira-se ao mar para atingir o barco. 
Nadou durante 4 horas. Foi recolhida por pescadores em plena noite e internada num hospital, com sintomas de hipotermia.
Tal comportamento fez com que também fosse vista num hospital psiquiátrico.
Seria afinal um gesto poético, de desespero amoroso ou atitude tresloucada de quem sofre já de surtos psicóticos?
Nada se sabe e cada um interpreta o acto, segundo a sua própria vivência. Tal como diz Camões « segundo o amor tiverdes», assim entendereis o feito exaltado duma mulher, sem medo da água e frio, numa noite de risco dum amor que lhe foge.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O DESEJO E A POLÍTICA NUM BAR DOUTROS TEMPOS




                                              Poema de Nuno Júdice

                          «Pequeno desvio ideológico»

      Naquela mesa ao fundo do bar, na faculdade
      de letras, no tempo em que nada acontecia, fugindo
      ao olhar atento dos contínuos, falávamos mais
      de política do que de amor, a não ser quando
      tu passavas pelas mesas para ir buscar o café e os teus
      cabelos lembravam as deusas da antiguidade, com os
      ombros nus e o olhar perdido nalgum futuro que 
      só tu previas. Às vezes, o fumo do tabaco envolvia-te
      em uma névoa que lembrava os campos de batalha,
      e era como se pedisses que nos fôssemos alistar
      nos teus sonhos, mas nós queríamos a realidade
      das tuas mãos, e não o ideal de que a tua presença
      nos afastava, calando as conversas à tua volta e 
      obrigando os que estudavam a fechar os livros. E
      eras tu, nesse tempo em que nada acontecia, que
      fazias acontecer o que não se podia confessar:
      o desejo que deixavas, à tua passagem, e que
      tínhamos de guardar connosco para que, à
      nossa volta, ninguém nos acusasse de fugir
      à revolução de que os teus cabelos nos distraíam.