segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

EXPOSIÇÃO EM VILA FRANCA DE XIRA A LEMBRAR NOITE NEGRA DAS CHEIAS DE 67




                                                                                                                 Filomena Leal


A Exposição mostra imagens e documentos que o Estado Novo escondeu. O concelho de Vila Franca fôra então o mais afectado e só no Lugar das Quintas morreram 89 dos cerca de 150 habitantes. E a população das aldeias como esta, foram apanhadas pelas cheias enquanto dormiam.
Inaugurada no Celeiro da Patriarcal, esta Exposição reuniu fotografias que, na época, não puderam ser divulgadas, e depoimentos de pessoas que viveram a tragédia deste Novembro de 1967. 
O curador e jornalista Joaquim Letria do Diário de Lisboa, foi quem primeiro chegou ao Lugar. Ao falar daquilo que encontrou e no choque que teve, a comoção invade-o. Sem comunicações e em plena escuridão, meteu-se numa barca de borracha da Marinha, com 2 fuzileiros e 2 bombeiros que procuravam salvar quem fosse possível.
Na manhã seguinte, ao ser noticiado, estudantes universitários e Associações católicas foram para o terreno apoiar os sobreviventes. Houve muitas centenas de mortos cujo número a Censura não deixou publicar.
Foi decerto, um dos momentos em que a Geração Estudantil se deu conta da situação miserável em que vivia a população à volta de Lisboa (que não a de Cascais) e se mobilizou politicamente.
É bom continuar a mostrar estes momentos trágicos do passado, e compará-los com o País do presente, o qual, apesar de todas as lacunas, Não é o Mesmo desses míseros e amordaçados tempos.   

sábado, 28 de dezembro de 2019

ESCOLA E HUMANIDADES



                                                                                                 Filomena Leal


A empresa como um templo e as escolas assumirem a imagem do modelo empresarial como se pretendeu na política dos últimos anos, é uma perda enorme da Cultura de solidariedade e comunidade educativa. 
É o fetichismo tecnológico: ter uma profissão de sucesso e ganhar muito dinheiro como imperativo, sem o inculcar de valores culturais e humanísticos que foram varridos da formação escolar. Enfatiza-se a ideia de que «apenas a ciência e tecnologia interessam neste mundo». E sabemos já o que acontece quando as sociedades ignoram as Humanísticas e procuram dominar e exceder-se com as grandes conquistas científicas e tecnológicas. Tivemos alguma experiência no passado, quando determinados avanços na Ciência serviram para dizimar milhares (senão milhões) de seres humanos.
Também sabemos que um médico ou engenheiro cultos, serão
sempre melhores profissionais do que aqueles que só percebem da sua área.
Sem a Cultura, sem a Arte, como elevada expressão humanística de subjectidades e pensamentos duma subtil diversidade, já teríamos sido dizimados como espécie.
Também o menosprezo da Literatura, como disciplina básica na formação, contribui para atrofiar não só a sensibilidade estética (da palavra e não apenas), mas a parte racional, ou seja a capacidade de raciocinar criticamente.
Saber argumentar com palavras, em vez de tomar atitudes violentas, dizer o que sentem em discursos emotivos, terapêuticos, é algo que pacifica jovens e adultos e isso aprende-se na escola e mais ainda nos livros e no gosto de ler, fomentado por aquela e pelo ambiente vivido desde a infância.
E a propósito do livro, transcrevo uma mensagem da escritora Lídia Jorge que dá ao livro um papel insubstituível:
«SILVICULTORES, PLANTAI MUITAS ÁRVORES, PORQUE OS LIVROS SERÃO DE PAPEL. No livro está o pensamento demorado, aquele que nos ajuda a treinar  bem o nosso cérebro lento,  porque o rápido tem aí todos os instrumentos. Só que este não conduz à Comparação, nem à Dúvida.  Como tomar uma decisão?Várias hipóteses para irmos deduzindo e escolher a que melhor se adapta à situação.  Ao desaparecer este tipo de pensamento, como será?
Acredito que vivemos para um sentido e não apenas para o prazer fácil e passageiro»                

             

sábado, 30 de novembro de 2019

A BELEZA SENTIDA E INVESTIGADA POR NEUROCIENTISTA




                                                                                                              Filomena Leal

O neurocientista britânico Senier Zeki considera como 1ª definição de beleza verdadeira a que experimentou quando aos 17 anos viu a Pietà de Miguel Ângelo no Vaticano - uma Beleza poderosa e emocionante.
Mas depois refere-se à experiência da Beleza a partir da neurobiologia.
Neste caso, relaciona-a com a actividade na parte do cérebro emocional, quer seja visual, musical, moral ou matemática.
E quais os mecanismos neurológicos, ao experienciarmos  Beleza? Quando vemos cores ou rostos? Paisagens?
A beleza não é tão subjectiva como por vezes se pensa. Há uma beleza que é biológica e sem discordância. Pessoas muito bonitas de cuja beleza ninguém consegue discordar.
Relativamente  a pessoas «normais», já há muita subjectividade.
Depois há a beleza fabricada, desde a arquitectura à escultura, pintura, em que a proporção, harmonia (de dimensões matemáticas, por vezes universais) nem sempre é bem entendida, embora tenha um certo grau de objectividade.
É dito mais: que tudo o que foi conhecido pelos grandes da Literatura (Shakespeare, Balzac, Vergínia Woolf, Zola) àcerca da psicologia humana e comoveram tanta gente em todo o mundo, foi através duma poderosa Beleza da Escrita.
A própria tristeza pode ser uma fonte de Beleza, tal como as fórmulas matemáticas, o binómio de Newton, que seduzem e apaixonam investigadores e até poetas!... E o cérebro é tanto mais activo quanto mais Bela e intensa uma coisa fôr para cada um de nós.  Como é que a Pietà faz chorar quem nem sequer conhece a religião cristã? O que tem de Beleza aliada a um sublime inexplicável e que comove profundamente, muita da Música de Mozart?
Cientificamente e é o neurocirurgião que o diz:
«Sabemos apenas que em tais situações, o Cortex Frontal do Cérebro está em grande e plena actividade».

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A INTERMINÁVEL NECESSIDADE DE ESCUTA


                                                                                                           Filomena Leal


Necessidade mas nem sempre disponibilidade.
A verdade é que, como dizia Alberto Caeiro: «Não basta abrir a janela/para ver os campos e o rio/Não é bastante não ser cego/para ver as árvores e as flores». E ouvir o canto das cigarras na poesia de Eugénio de Andrade, aprender a conhecer o Verão, com todos os cheiros, cores e música de quem aplica todos os sentidos à realidade, não é tão simples assim.
É uma sabedoria de que nos fomos afastando, tal como a fábula de La Fontaine - a Cigarra e a Formiga - o ilustram bem.
A crítica ao viver só a cantar e disso fazer a sua ocupação, não preparar o Inverno com provisões, é toda uma Visão Utilitarista do mundo que nos foi inculcada e nos fechou a porta a tudo aquilo que consideramos inútil e afinal, nos é tão Essencial!!!

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

«O LABORATÓRIO DE SONHOS» DE SARAH AFONSO (a propósito da exposição na Gulbenkian)




                                                                                                Filomena Leal


É só em 2019, no celebrar dos 120 anos da artista com 2 exposições, uma no Museu do Chiado e outra no Museu Gulbenkian que Sarah Afonso é lembrada com grande destaque.  Porquê só agora?
Não será por acaso, que a artista entra nestas 2 Instituições museológicas por via de 2  mulheres que as dirigem - Penélope Curtis na Gulbenkian e Emília Ferreira no Chiado. 
Já em vida, embora admirada pelos seus pares como pintora, nunca teve qualquer encomenda pública. A desigualdade de género brindou-a sempre através dos tempos, até que, na actualidade, porque existe mais atenção a esse problema e graças a mulheres com poder para isso, a sua Arte se tornou mais visível e apreciada.
É no Minho, onde vive com o pai, que ela pinta com grande força e elaboração, o povo e a paisagem da sua infância. São desse tempo Menina com Boi, Camponesa amamentando o Filho, obras de sabor neo- realista nas figuras femininas ligadas ao trabalho do campo. Mas foi em 1937, o seu «ano de ouro» com o Coreto, Casamento na Aldeia, Lavradeiras, Família, que ela se constroi artisticamente através do «laboratório de sonhos», o constante estímulo da sua Arte.
O casamento com Almada Negreiros e consequentes preocupações familiares, levam-na a assumir que não pode dedicar-se  à pintura  por falta de tempo e até de espaço. E acaba mesmo por desistir.
No entanto, não deixa de deslocar a sua criatividade para o contexto doméstico. E assim é no bordado, cerâmica, nas pequenas coisas do quotidiano, e mais tarde no próprio jardim da Quinta de Bicesse, onde ela se aplica de modo mais pragmático, compensando um pouco o vazio de não ter continuado com a pintura.
Menorizada pelos críticos esta forma de expressão, tal como o interesse pelas crianças (com retratos) e questões de género, é hoje vista como a «continuação lógica da diversificação artística que as vanguardas valorizavam» mas...nas obras de artistas homens. Nas de mulher artista, a origem e interesse é, segundo eles, de cariz emotivo e psicológico e, como tal, não é Arte. 
COMO É POSSÍVEL TAL DESCRIMINAÇÃO?

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

ÀCERCA DO ACORDO ORTOGRÁFICO




                                                                                                         Filomena Leal


Assumo o meu combate por uma justa causa: o repúdio por um acordo ortográfico que, além do mais, é ilegal e não reconhecido pela Norma jurídica Internacional.
É que desde o início, sempre considerei como principais vítimas dele, uma geração de alunos (e professores) a ficar sem qualquer consciência da matriz etimológica da língua.
Com pareceres negativos de linguistas de renome, de homens de Letras e do Direito, de Poetas e Escritores e até de alguns políticos, é por eles visto como absurdo e de efeito deplorável na expressão escrita e oral dos nossos jovens. Que são, sem dúvida, «analfabetos funcionais», uma vez que não sabem construir frases nem dominam referentes histórico-culturais, conduzindo a cada vez maiores erros na escrita e entendimento das palavras. 
E isto, porque o sistema de ensino vive sob a influência do paradigma tecno-científico: a linguagem que impera é a da gestão e estatística e expressões muito modernas da Web Summit.
Com base na «unidade da língua nas suas variantes e na sua constante mudança», este AO pretende tudo uniformizar.
E com toda a confusão que gera nas várias gerações e por razões diferentes, a língua Portuguesa sofre (e já está a sofrer) com este novo Acordo Ortográfico, o maior declínio e desenraizamento de que há memória na nossa História Linguística.
E afinal para quê escrever e falar «um português correcto e de raizes anacrónicas»? É a globalização e o mercado a imporem a nova língua.
Não, não é ditadura, é «modernismo». E Portugal quer estar sempre na vanguarda de tudo o que é «moderno e actual».

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

«COMO PENSAR MAIS SOBRE SEXO» - UM LIVRO DE ALAIN DE BOTTON



                                                                                                             Filomena Leal


Apesar de toda a liberdade sexual existente nos nossos dias, o sexo é algo que continua a levantar bastantes questões.
O livro centra-se  muito na apetência erótica dos indivíduos em geral, e que não se compadece muitas vezes com uma situação de amor estabilizado e preocupado com a gestão das rotinas necessárias e demasiado absorventes do quotidiano.
Debruça-se então, sobre fugas eróticas em determinadas situações (viagens de trabalho, por exemplo) e o consequente sentimento de culpa, face a um amor sólido e harmónico vivido conjugalmente. E daí ele defender que está na hora de as pessoas se despirem do verniz moralista e da mentira, assumindo que sexo apenas e amor, podem sentir-se de forma independente, embora continue a existir Desejo naquele amor que, afinal fica em risco, sem haver uma razão de fundo para tal.
E as fantasias sexuais inerentes à natureza humana, o autor as justifica porque são realistas, existem, embora sujeitas ainda a um moralismo hipócrita e castrador.
Segundo ele, muitas das suas ideias e repensar, foi bebê-las, não só a obras freudianas, mas também à ficção clássica como Madame Bovary de Flaubert, Cenas de um Casamento de Ingmar Bergman, etc.
Acaba, no entanto, por exaltar a grande maravilha de estar Apaixonado(a), com amor e sexo fundidos em elevado grau.

sábado, 28 de setembro de 2019

O INTERIOR E SUA CAMINHADA DO SILÊNCIO



                                                                                                             Filomena Leal


Há uma tirada humorística do «Inimigo Público» que parece ser aquilo que os poderes políticos (e não só) esperam acontecer: «Metade do país em risco de desertificação vai tornar-se litoral populoso quando as alterações climáticas aumentarem o nível do mar».
Mas depois de ouvir alguns discursos de forças com alguma influência em Lisboa, a acharem mal empregue os poucos recursos de programas específicos para regiões de baixa densidade, não espanta que as portagens nas auto-estradas do Interior sejam as mais caras, que os futuros médicos da UBI tenham de sair para prova  de acesso à especialidade e retirem serviços básicos tão necessários e mesmo indispensáveis às populações residentes, de que a luta dos habitantes de Almeida contra o encerramento do balcão da Caixa mostrou o chocante e indiferente desdém do poder político.
Face a uma vila desertificada e umas centenas de moradores com autarca em desespero, pelo efeito socio-económico que tal medida viria a ter no seu concelho, já tão empobrecido, as vozes de indignação nenhum eco tiveram.
Tudo isto tem a ver  com frases fatalistas àcerca desta fracção maioritária do país como a que se leu no Público ainda recentemente: «...assumir também que em porções importantes do nosso país, coesão territorial significa gerir o declínio e portanto significa assumir que há partes do nosso território onde não vai ser possível recuperar população e actividade económica»(Ana Abrunhosa).
E é assim que a caminhada silenciosa do interior continua. E este silêncio começa a ensurdecer. O clamor das vozes vai-se calando, esgotado e sem forças, frente ao Grande Poder Central, indiferente ao desiquilíbrio e escandalosas desigualdades do País. Uma das vozes que desde sempre se tem batido pela melhoria das condições de vida das populações destas «tão remotas paragens» - o Jornal do Fundão - é quem ainda continua a resistir e a não deixar fugir de todo a esperança. O seu mais recente programa Interioridades mostra bem todo o valor desperdiçado das «aldeias», fieis depositárias da nossa memória colectiva e a precisarem com urgência dum futuro que querem negar-lhe.
Só alguém com coragem e desprendimento do poder (os votos, senhores, os votos! como viver sem apoiar o grande e populoso eleitorado do litoral?) talvez ainda conseguisse «equilibrar o barco». Contudo, o tempo passa e o «atraso» vai sendo sempre cada vez mais irreversível...
Como é triste viver num país tão desiquilibrado porque mal gerido! 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

AMOR DE VELHOS - À CAMILO




                                                                                                  Filomena Leal


Foi noticiado em Jornais portugueses e ingleses.Uma história verídica que emocionou muita gente. 
Trata-se de Michael e Susan Brown que se encontravam no Funchal, a bordo de um cruzeiro turístico de 5 semanas. Quase no final da viagem, discutiram acaloradamente e resolveram regressar  a casa. Compraram bilhetes de avião e foram para o aeroporto. Uma vez aí, Susan deixou de ver Michael e pensou que ele teria voltado para o barco (ele entretanto, fôra para Inglaterra noutro voo).
Correu então para o paquete, mas não chegou a tempo, pois já tinha zarpado. Como ainda estava à vista, Susan, alucinada, (tinha mais de 60 anos) atira-se ao mar para atingir o barco. 
Nadou durante 4 horas. Foi recolhida por pescadores em plena noite e internada num hospital, com sintomas de hipotermia.
Tal comportamento fez com que também fosse vista num hospital psiquiátrico.
Seria afinal um gesto poético, de desespero amoroso ou atitude tresloucada de quem sofre já de surtos psicóticos?
Nada se sabe e cada um interpreta o acto, segundo a sua própria vivência. Tal como diz Camões « segundo o amor tiverdes», assim entendereis o feito exaltado duma mulher, sem medo da água e frio, numa noite de risco dum amor que lhe foge.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O DESEJO E A POLÍTICA NUM BAR DOUTROS TEMPOS




                                              Poema de Nuno Júdice

                          «Pequeno desvio ideológico»

      Naquela mesa ao fundo do bar, na faculdade
      de letras, no tempo em que nada acontecia, fugindo
      ao olhar atento dos contínuos, falávamos mais
      de política do que de amor, a não ser quando
      tu passavas pelas mesas para ir buscar o café e os teus
      cabelos lembravam as deusas da antiguidade, com os
      ombros nus e o olhar perdido nalgum futuro que 
      só tu previas. Às vezes, o fumo do tabaco envolvia-te
      em uma névoa que lembrava os campos de batalha,
      e era como se pedisses que nos fôssemos alistar
      nos teus sonhos, mas nós queríamos a realidade
      das tuas mãos, e não o ideal de que a tua presença
      nos afastava, calando as conversas à tua volta e 
      obrigando os que estudavam a fechar os livros. E
      eras tu, nesse tempo em que nada acontecia, que
      fazias acontecer o que não se podia confessar:
      o desejo que deixavas, à tua passagem, e que
      tínhamos de guardar connosco para que, à
      nossa volta, ninguém nos acusasse de fugir
      à revolução de que os teus cabelos nos distraíam.


  



quarta-feira, 31 de julho de 2019

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E NEURO-HUMANIDADES



                                                                                                             Filomena Leal


Existe já hoje um enorme aparato tecnológico integrado no nosso quotidiano. Mas a simbiose homem - máquina vai sendo cada vez mais o nosso futuro. E o robô tenderá a ser menos automático ( apenas) e cada vez mais autónomo. 
E então o que poderá acontecer quando fôr ele a decidir o que fazer nas mais variadas situações resolvidas habitualmente pelo homem? É aí, nas novas interacções entre homem e máquina que se levantam novas questões quer no campo da ética, quer no próprio trabalho científico.
Por isso, toda a evolução das neuro-ciências, computação e inteligência artificial tem de ser acompanhada pela contribuição das Humanidades. À medida que o caminho vai sendo prosseguido, é necessário o seu questionar, para que a I.A não crie cenários catastróficos para os humanos. As loucuras feitas no passado em nome da Ciência, nada representam, face aos problemas que se levantam hoje, se não houver uma forte participação das neuro-humanidades no processo de produção científico.
Para além da eficiência e segurança que a Inteligência Artificial pode conferir através dos seus mecanismos cada vez mais humanizados, os milhares de técnicos superiormente habilitados a Ensinar as máquinas e que ganham actualmente muito dinheiro, talvez estejam a trabalhar para ficarem, de modo bastante perverso, sem emprego. (Entretanto uma grande maioria de trabalhadores já teriam sido substituídos pelos robôs automáticos e alguns autónomos)
O futuro da Humanidade está em jogo. Nesse sentido, já existe o Centro para o Estudo da Sobrevivência Humana da Universidade de Quioto, no Japão. Aí se estuda como vai ser a interacção das máquinas e humanos e o que fazer para que o ser humano Sobreviva.
A montanha de questões éticas e emotivas a enfrentar face à dita «empatia artificial» dos seus entusiastas, não pode esquecer tudo aquilo que nos distingue como seres humanos.
QUE NÃO PODEM FICAR NA QUASE TOTAL DEPENDÊNCIA DOS «ARTIFICIAIS HUMANÓIDES»        

segunda-feira, 29 de julho de 2019

PARA QUANDO RECONHECER O VALOR SOCIAL DO CUIDADOR (A)?



                                                                                                   Filomena Leal


Trata-se de Cuidador (a) informal, pois aquele ou aquela (na sua maioria mulheres) que presta cuidados com dedicação e afecto, abdicando de si ou colocando em suspenso a vida profissional, difere bastante de qualquer estrutura formal existente na área.
É verdade que já têm um estatuto, já lhes foi reconhecida existência política e capacidade reivindicativa. Porém, a sua labuta diária, sem horários ou folgas, noites em sobressalto, uma dedicação extrema, continua sem qualquer recompensa em direitos efectivos.
Protegê-los e deles cuidar, valorizando socialmente o acto de assegurar a maioria dos cuidados a todos os que dependem da sua dádiva generosa, é mais do que urgente. Afinal quem cuida destes cuidadores, quem os substitui se adoecem, se começam também eles a precisar de cuidados? 
Urge pois, treinar e apoiar não só tecnicamente todos estes cuidadores, mas também compensá-los com alguns recursos financeiros e perdas decorrentes do cuidar, implementar soluções para o seu merecido descanso, tudo isto inscrito numa lei geral que consagre juridicamente o seu estatuto.
Imaginar um cenário em que os cuidadores informais deixassem de o ser, como seria?
Tantos problemas e tanta lentidão em resolvê-los!
(Será que os «humanóides» de que já se fala tanto, poderão actuar como humanos que não são, para os resolver?)

sábado, 29 de junho de 2019

O IMPANTE «CENTRALISMO DEMOCRÁTICO» QUE IGNORA O INTERIOR DO PAÍS




                                                                                                       Filomena Leal


O discurso de João Miguel Tavares no dia de Camões em Portalegre, foi uma «pedrada no charco» no contexto habitual das palavras que se ouvem neste Dia de Portugal. 
Um Portugal, em que a maior parte do seu território está esquecido. Tal como Portalegre, muitas outras zonas do País, padecem do mesmo mal: despovoamento e declínio, sem políticas que procurassem empenhadamente isso evitar. Políticas capazes de vitalizar o nosso vasto interior, com tantas e tão diversas potencialidades, mas deixadas ao abandono, com indiferença. E é todo um país que empobrece, desiquilibrado : tudo se concentra nos grandes centros urbanos e zonas do litoral, onde as populações se acotovelam, porque aí é que há empregos e empresas estimuladas pelo  poder. 
A grande catástrofe centralizadora faz com que todos emigrem para os mesmos sítios (onde se decide o que é relevante) e deixem as suas terras abandonadas. Claro é que muitos têm de ir para fora do país, uma vez que as zonas desenvolvidas são uma pequena parte do território.
Será que não teremos à vista um político ou uma equipa de políticos que, desafiando o«fatalismo» em vigor, ponha fim ao estertor desta maior fatia do país, com medidas que o dinamizem e o consigam povoar? Essa é que seria a Grande Acção contra a corrente e 100% Inovadora.
E isso sim, mereceria o olhar Grato e Confiante dum País, que sabe avaliar as políticas em prol do seu autêntico desenvolvimento. 

quarta-feira, 26 de junho de 2019

SALVAR NÁUFRAGOS PASSA A SER CRIME? COMO É POSSÍVEL?




                                                                                                               Filomena Leal


E é o Governo italiano - inserido na Europa e seus valores humanitários - que acusa o português Miguel Duarte do crime de «ajudar a imigração ilegal».
Resgatar náufragos é um dos princípios morais mais antigos da humanidade. E na própria legislação portuguesa está previsto o «dever de auxílio» como obrigação, quando se trata de salvar vidas.
Como é possível pois, não lutar contra o grande escândalo moral do nosso tempo que é deixar o Mediterrâneo ser o infindo cemitério de milhares de pessoas desesperadas e esperançadas numa vida digna?
Como é possível não fazer oposição à falta de ajuda a quem se sujeita aos maiores riscos e tortura para sobreviver?
Os Direitos Humanos de que a Europa se fez há muitos anos paladina, não serão Direito de todos estes seres massacrados por uma guerra de que fogem e lhes tira qualquer esperança de vida? Deixá-los morrer,  não será, isso sim, um crime desprezível contra a Humanidade? Se nós aceitamos isso, o que resta da solidariedade e fraternidade humanas?
Urgente será um sistema de protecção a refugiados, com medidas que os ajudem a fixar-se com segurança e dignidade
nesta Europa que os deve acolher, assumindo assim, toda a sua identidade humanista. Todo um Bem Fazer, sem descurar o contrôle evidente e necessário de riscos possíveis,
 mas superáveis.
Deixar morrer náufragos e punir quem lhes «estende a mão»?
Como é possível tal desumanidade?



sexta-feira, 31 de maio de 2019

REGULAR REDES SOCIAIS NÃO SÓ É NECESSÁRIO COMO URGENTE



                                                                                                         Filomena Leal


Regular - é esta a mensagem de Wylie, o programador canadiano que denunciou o escândalo do uso abusivo de dados dos utilizadores do Facebook. 
E vai mais longe:é mesmo Urgente. Compara as redes sociais a «antigos colonizadores» e vistos de início como «mensageiros divinos». Mas eram e são, na verdade, «exploradores que querem acumular recursos na forma de dados pessoais, sem preocupações com a maneira de funcionar das comunidades onde estão a entrar».
E qual é o maior problema da regulação? É que os políticos responsáveis por isso, não têm a noção dos problemas em causa ou, se sabem, não se preocupam e vão adiando... Até porque, regular não é impossível, se fôr levado a sério. Regulam-se fábricas de energia nuclear, por que não conseguir regular plataformas on line? Professores, médicos, jornalistas, advogados, todos eles seguem leis éticas estabelecidas. Por que não, quem trabalha com dados tecnológicos?
Os futuros assistentes digitais em casa parecem não estar longe. Eles chegarão quase sem nos darmos conta. Iremos então ter a casa em que vivemos conectada ao carro, telemóvel, local de trabalho, onde os sistemas informáticos poderão ter o poder de decidir sobre todo o nosso quotidiano. Se não regularmos agora, em que os algoritmos estão em contrôle, será quando tudo já estiver a funcionar de acordo apenas com leis de eficiência e rapidez, sem o necessário contrôle humano? Como lidaremos então com esses «monstros funcionais»?
Já há inúmeros especialistas a revelar este lado negro da tecnologia. 

terça-feira, 28 de maio de 2019

A CULTURA COMO «TRANSFORMADORA » DA VIDA



                                                                                                          Filomena Leal
       

Lembro muitas vezes as lições do grande sábio Padre Manuel Antunes ( Prof. de Cultura Clássica), àcerca do conceito de Cultura em cotejo com o de Civilização.
E foi um útil  ponto de partida para toda a minha vivência cultural através dos anos.
 Assim, para mim Cultura é pensar pela própria cabeça, uma arma para combater o lugar comum, o banal, o preconceito e a indiferença, face à diversidade do real. É um Saber digerido, assimilado, relacionado e recriado. Exige muitas leituras, convívio com pessoas «vivas», olhando tudo e todos com olhar próprio, construído a partir da experiência e reflexão. É não ter preconceitos sobre a importância das coisas e até disponibilidade para pôr em causa o que hoje consideramos certo. Difere da erudição por muitas das dimensões de criatividade e até do fazer.
Assim, um médico competente tecnicamente, pode não ser culto. A frase de Abel Salazar «um médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe» ilustra bem isso.
Um professor que se preocupa só com a matéria a ensinar, sem interagir com os alunos noutras dimensões, não é uma pessoa culta.     E a propósito, como professora que fui, vivi sempre esta profissão como fonte de aprendizagem com as sucessivas gerações que ia conhecendo. E como lembro brilhantes alunos
que tive! (em particular no ensino nocturno) com gente a trabalhar e a estudar simultâneamente (estudar era mesmo o 2º trabalho). E sinto-me grata por tudo o que com eles aprendi e o que com eles partilhei! (encontros ocasionais com alguns deles, ao dizerem: «as suas aulas, professora, eram diferentes», dão-me uma certa alegria , pelo reconhecimento).
Sempre procurei relacionar tudo com tudo - literatura, música, pintura, ciência, meios de comunicação, e ainda os grandes e pequenos nadas de que a vida é feita.
É este o meu conceito de Cultura, dispersivo aparentemente, mas integrador do Saber e construtor duma Visão do mundo pessoal. Não posso deixar de referir nesta minha construção cultural a Ética de vida legada pelos  Pais e os fogachos de Progresso trazidos pelas Filhas, tudo mui reflectidamente fundido.
Termino por considerar que é a Cultura integrada no Trabalho e Vida, o único modo de se ser cada vez mais Lúcido e Livre.
Ela não existe para enfeitar a vida, como alguns a vêem, mas para a «Transformar», tornando-a mais Clara e Justa, como nos diz empenhadamente a grande Poeta Sophia de Mello Bryner.
 E perante a precariedade de tantos trabalhadores da cultura, tão empenhados e criativos em todas as áreas, como é possível ficar indiferente ao pouco valor e recursos materiais que lhes são atribuídos? Como imaginar o vazio e o sem sentido de vida, sem as artes e tudo o que é manifestamente Cultural?                                                                       

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O DESLUMBRE IRREPETÍVEL DAQUELE 1º DE MAIO



                                                                                                     Filomena Leal


Foi logo após o sonho realizado, dum 25 de Abril, portador da grande Liberdade, que o povo, maravilhado, saiu à rua. 
A alegria e o dizer confiante destes dias, levaram as pessoas a viver uma beleza solidária que forrou o real, como se fosse possível viver sempre assim (alguns mais idealistas, julgaram mesmo que sim). Era uma fina pele que iria rasgar-se com a primeira unhada que o egoísmo natural do homem aí cravasse. Mas ninguém pareceu pensar nisso.
Naquelas ruas do 1º de Maio todos passavam de braço dado. Alegres, riam e acenavam aos simples conhecidos, com lágrimas nos olhos. Crianças aos ombros dos Pais, viam e testemunhavam essa hora ditosa.
45 anos depois , solto a memória desse eufórico dia, ainda um pouco incrédula de tanta luz liberta que inundou o País. E a coincidência do meu momento subjectivo, resultado duma evolução pessoal, com aquele momento histórico, tornou tudo extraordinariamente mágico. Quase milagre...
O que então aconteceu de luminoso, não se pode contar. É tão pessoal como o Amor.
Mas, apesar de se entrar no campo duro da realidade e a luta dos interesses começar, muita coisa o tempo deixou intacto e muitos caminhos Abril abriu.
Portugal não seria o mesmo, sem tudo o que se foi construindo de bom, nestes 45 anos de liberdade - fim da guerra colonial, a democratização do acesso ao Ensino, o Serviço Nacional de Saúde, a universalização da Segurança Social, a valorização do poder local, medidas essenciais e que mais beneficiaram os portugueses. Muita, mas mesmo muita crítica há a fazer, e muito mais e melhor se podia ter feito, é verdade.
Mas isso não pode apagar tudo o que conquistámos e vivemos com todo o fulgor Realizador do Abril de 74.                                        


sexta-feira, 26 de abril de 2019

LER É VIVER MUITAS VIDAS E CONHECER MUITOS MUNDOS



                                                                                                    Filomena Leal


Ler exige empenho, mas assim que a leitura se torna uma necessidade da mente, já não se pode passar sem ela.
Ler é comunicar, e, como se de milagre se tratasse, é um acto quase sempre solitário, mas sem que o leitor sinta solidão. É partilhar a complexidade de muitas mentes no seu dia a dia. É poder pensar como um apaixonado, um criminoso, um herói, um angustiado, alguém problemático, sentir verdade em tudo isso e aprender a conhecer o Outro.
Ler é uma ocasião para encontrarmos mundos possíveis e muitos já existentes, mas transfigurados.
É recusar no fundo, o querer passar por esta vida apenas, como simples turista.
No entanto, o coração da leitura e escrita, mudou, com a introdução do Algoritmo geral. Processamos toda a informação de muitas formas e velocidades. O processo humano de leitura foi transferido para caixas negras, e instrumentos continuamente substituídos por outros mais complexos. Autorizando sempre o esquecimento da memória humana.
E, se com tudo isto, o cérebro deixar de conseguir ler? E, se forem as máquinas a conseguirem escrever-nos, ler-nos, ver-nos? E a substituir a leitura pela inteligência artificial e exterior? E se a brilhante tecnologia se vai tornar uma ameaça à capacidade de quem a produziu?
Sem leitura e sem escrita e seu estímulo criador e memorialista,
a decadência humana será de certo, uma realidade. A ler e escrever nos tornámos no que somos - seres pensantes e sempre adaptáveis a novas realidades. E fervorosamente crentes no progresso.
Como tal, ler não poderá deixar de ser a Aventura fundamental da promoção humana. E até sabemos que a literacia electrónica reduz gravemente a memória e a própria consciência que temos do tempo que vivemos e habitamos.
O Livro foi declarado morto tantas vezes, que, afinal, só pode estar e continuar bem vivo, para quem o livro impresso é uma das grandes preciosidades e alimento do seu dia a dia.   

domingo, 31 de março de 2019

AINDA SOBRE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


                                              Filomena Leal


Reli o livro de Cristina Silva - A Mulher Transparente. Senti o mesmo que há anos, ao lê-lo pela 1ª vez. Mas agora, com mais conhecimento de toda a extensão trágica deste problema.
Sinto-me ela, a vítima, a viver diária e continuamente com as malfeitorias dum agressor que, possuindo-a como objecto, tanto a pode enlaçar como pontapear, deixar-lhe o corpo ferido e a sangrar até chegar ao limite máximo de o destruir.
E não posso deixar de citar o impressionante e realista início do livro atrás referido ( e que denota para além de tudo, uma profunda violência psicológica, fruto dum  medo terrífico ao senhor e dominador): « O meu marido abriu a porta da rua ( e o eco do seu estrondo, ao fechar-se, propagou-se pelo escuro até ao meu quarto). As botas vão subindo as escadas. Rangem por um trilho que segue o seu curso até ao palpitar agitado do meu coração. Cada passo encena a cadência de um exército em manobras de marcha... Mais um degrau transposto e o meu marido reduz a distância que o separa de mim..(...) A raiva latente que o domina é livre para expôr a sua fúria em nódoas negras pelo meu corpo. Quando acaba de me bater...(...)Os olhos brilham, atiçados pelo tropel furioso de uma emoção de poder.
«Puta de merda, pensas que me enganas» grita ele, antes de restituir ao meu terror os gemidos dos seus fantasmas»
E é o ciúme (e o quê mais?não se sabe bem...), o sentimento de posse, na sua versão mais primitiva, a enformar a mente doentia destes homens (ainda há quem ingénua? ou romanticamente? consiga chamar a isto «amor»desmedido, naturalizando, afinal, tal comportamento!!!) Sabemos, contudo, que se trata de todo um sistema cultural, assente na própria justiça que desculpa o agressor e culpa a vítima, por ter comportamentos considerados humilhantes para o homem e, como tal, merecedores de castigo (não é um juiz que, ao reduzir a pena suspensa a 2 agressores violentos, argumentava que na Bíblia se diz que «a mulher adúltera deve ser punida com a morte»?) Conformismo ancestral?
É URGENTE QUE O ESTADO AMPARE ESTAS MULHERES (pois quem mais lhes poderá valer?) e compete-nos a nós, sociedade civil, dar-lhes apoio e força para irem a uma esquadra e enfrentarem todo o labirinto jurídico que actualmente as envolve.
TAMBÉM NÃO PODEM SER ESQUECIDAS AS CRIANÇAS QUE ASSISTEM A FREQUENTES CENAS DRAMÁTICAS OU SOFREM A MESMA VIOLÊNCIA DAS MÃES. SÃO MARCAS TRAUMÁTICAS QUE AS ACOMPANHARÃO, DECERTO,TODA A VIDA.  

domingo, 17 de fevereiro de 2019

ÀCERCA DUM DETERMINADO CONCEITO DE BOM ALUNO




                                                                                                    Filomena Leal



Sempre que ouço os políticos falarem de Bom Aluno, no sentido daquele que segue submissa e acriticamente tudo o que é dito e preconizado pelo professor, sinto alguns calafrios.
Sempre considerei um Bom Aluno aquele que ouve o professor atentamente, mas com sentido crítico e aberto. É capaz de colocar questões difíceis sobre a matéria, criando a tal dinâmica professor/aluno, tão essencial nas nossas escolas (claro que o professor tem de estar à altura desta concepção de Bom Aluno e ela estava presente em muitos dos que conheci da minha geração, o que contribuiu também para o seu evoluir).
Sempre considerei um Bom Aluno aquele que é capaz de avaliar os seus professores com justeza e sem lisonjas submissas, sendo apenas seu, o mérito de obter boas notas. Pelo trabalho, inteligência e dedicação à causa (neste caso Aprender) e por que não? uma certa solidariedade com colegas de menores recursos e carentes de apoio (até nisso o bom professor tem de estar atento).
Num tempo em que os jovens tendem a ser cada vez menos esforçados, pergunto-me se Comunicação social e políticos pensarão porventura, nos efeitos desestimulantes que a referência crítica ao Bom Aluno poderá provocar?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

RELAÇÃO CRIADOR/PERSONAGENS




                                                                Filomena Leal


Quando as personagens surgem, começam a fazer parte da vida do escritor. É como se fossem pessoas vivas. 
Ao ver recentemente uma exposição de Rodin, veio-me à ideia a personagem da Casa dos Seniores, o escultor Ferreira que  considerava aquele, um dos seus grandes Mestres. Não vi as Mãos que tanto interesse criativo despertaram no grande escultor e também na minha personagem. Mas evoquei a tragédia de Ferreira, quando ficou acidentalmente sem uma Mão, o que o aproximou ainda mais de Rodin que teve problema idêntico.
E penso como vivi e acompanhei todo o seu trauma e a maneira exemplar como o ultrapassou.
Afeiçoei-me a esta personagem e tive pena quando, ao acabar o livro, dela me separei. De igual modo, senti imensas saudades do Violinista Graça, da sua presença discreta e da música divinal de Mozart que tocava, debruçado no violino. O ambiente por ele criado, era para mim e muitos dos residentes, cheio de magia. Fez-me falta. 
Outras personagens (e havia muitas na Grande Casa) com quem muito dialogava, me provocaram um grande sentimento de perda. Foram-se todas embora - seguiram o seu caminho. Fiquei sem elas.
Mas o vazio que senti, não podia durar muito.
E eis que, num dia de nevoeiro denso e ar gélido, me surge a personagem Madalena a despertar-me, de imediato, profundo e centrado interesse. O que a caracteriza desafia-me o pensar imaginário. Contudo, será a Escrita, no seu trabalho dissecador da palavra, que a irá definir e adensar como criatura pensante e a querer libertar-se dos códigos sociais que a oprimem. Estou a aperceber-me que se trata dum ser complexo, em grande conflito consigo mesma e a imagem construída perante os outros. 
A sua actuação no papel já começou - movida por uma sensualidade apaixonada e vibrante pelo outro, quase «mística». Irei ter, de certo, muitos problemas com ela, não será pacífica a nossa relação, até porque a teia de relações com outras personagens diferentes e redondas, vão carecer de muita atenção e criatividade da minha parte, para resolver toda a problemática dum enredo verosímil.
Como será possível não me afeiçoar a toda elas, se é com elas que vou construindo a minha própria e imaginária Realidade,
numa luta/labuta do dia a dia?
    

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

LIVROS E INTERNET



                                                                                                   Filomena Leal


Tenho mil receios de perder as minhas centenas de livros.
Mesmo que nem todos sejam merecedores de serem guardados, outros há impossíveis de substituir (estou, contudo, em vias de fazer a selecção e ficar apenas com os que actualmente me interessam).
Para além disso, a Internet e sua «limitada sabedoria» poderá falhar e até (quem sabe?) deixar de existir.
Graças à despesa constante e muita, de muitos anos, tenho, sim, uma grande biblioteca de livros materiais (e não «on line»)que, de certo, me dão informações e visões da realidade, muitas e várias, até mais rigorosas do que tudo que poderia obter na Internet. Quando os consulto, bem noto a diferença: o que constato é que encontro em alguns o que nem sequer vislumbro na Internet. Algo imperecível e não apetecivelmente moderno e «actual» para internautas fanáticos.
(Não deixo, no entanto, de reconhecer que há muita e diversa informação na Internet. Eu própria a consulto bastante e satisfaz-me, dependendo dos assuntos.)  

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A ESCRITA E DURAÇÃO NO TEMPO



                                                                  Filomena Leal


É A.Lobo Antunes que tanto escreve e tão profundamente trabalha a escrita, que dela nos fala e com muita frequência. 
Diz ele que começou por fazer versos aos 13 anos, mas logo viu que o seu talento seria a prosa. E, apesar de ser horrível, logo teve a certeza que iria fazer o que nunca antes dele, se fizera.
Não se preocupava nesse tempo com a forma interna, o uso das palavras no interior do texto, ou seja, com problemas técnicos. 
A verdade é que a maior parte dos leitores exige resultados, sendo-lhe indiferente o meio de os atingir. Mas a ele e a muitos escritores, o que os atrai num livro, por dever de ofício, é desmontá-lo, vê-lo por dentro, os parafusos, as rodas dentadas, os amortecedores, a tralha escondida que põe tudo a funcionar.
Há uma frase de John Cheever «numa boa página de prosa ouve-se chover» Como se chega a isso é a questão que Lobo Antunes coloca. E que imagem ficará dele na sua escrita? pergunta. 
A de que tentou a vida inteira conseguir vários níveis de emoção em cada frase e Concentrar num Nada o Mundo Todo. Ao morrer, deixa parágrafos. 
Na esperança que as asas queimadas dos insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre, crepitem não um segundo, mas a Eternidade inteira.