segunda-feira, 23 de abril de 2018

VIAGEM MENTAL A UM TEMPO ÚNICO


         
                                                                 Filomena Leal

Parecia sonho. Mas não, foi tudo real.
A memória está viva desse Tempo Novo, daqueles dias de Liberdade exaltante e dos Sublimes Instantes então vividos.
No liceu D. Dinis, o meu Espaço docente de muitos anos, Mobilizar (uma palavra nova, adormecida até então no Dicionário) foi a poção mágica para tornar possíveis sonhos de mudança duma realidade castradora e sem futuro. O Direito à Educação e Cultura abriu as portas da Escola elitista a todo um povo, de tudo isso tão carente. Alunos e Professores uniram-se para operar a Mudança. E um Reitor que, recentemente, face a uns panfletos «subversivos», fizera entrar a Pide naquele Espaço, foi, segundo as novas regras revolucionárias, destituído em plenário. 
Então, Comissões eleitas democraticamente, começaram a dirigir o liceu. Actividades múltiplas, estudos pedagógicos adaptados à nova realidade, visitas a jornais, museus, a empresas, (tentou-se desde logo, prestigiar o trabalho manual), muitos debates dos mais variados temas, sessões com escritores, actores, e outros resistentes que sofreram a censura e torturas fascistas, tudo isso dinamizou o ambiente.
Também a situação política e a Liberdade, um dos principais valores da Revolução, não podia ser descurada. Porque, afinal, nada estava assegurado. Após um 1º de Maio, pleno de cravos vermelhos, solidários e felizes, todos unidos contra o regime fascista derrubado, surgem as primeiras nuvens a toldar essa marcante felicidade. Várias forças políticas, algumas passadistas, entram em acção. Então, a luta pelos novos Valores, fazia voar todos os que os defendiam. E o desapego dos bens materiais, para que Todos tivessem acesso a pão, saúde e habitação, era vulgar em muitos militantes da Revolução. Foram dias Esplendorosos, por sentirmos ser possível melhorar a vida de muita gente.
Depois houve cenas inolvidáveis, como a emocionante Saída dos Presos Políticos de Caxias. Eram caras de espanto à mistura com lágrimas duma alegria incrédula… E tudo isto, graças à heroica e competente Acção do «Movimento dos Capitães». Assim, quando Dinis de Almeida, qual herói romântico, belo e compenetrado da sua missão, saía do Ralis na sua Chaimite, levava de imediato com salva de palmas agradecidas. E com todos os «Capitães de Abril» acontecia o mesmo (falo no Dinis de Almeida, porque o liceu era perto do Ralis e íamos lá frequentemente no intervalo das aulas).
Também a Guerra colonial teve de acabar. Era o grande drama dos jovens que por lá morriam ou regressavam estropiados e sem conserto possível.
E a mulher, tão menorizada pelo regime? Eis que começa a vir para a rua, tomando consciência dos seus direitos e da luta necessária para os fazer valer.
E FOI ASSIM AQUELE TEMPO, QUE PARECIA NÃO TER TEMPO...                                                                                                   



sexta-feira, 13 de abril de 2018

É SEMPRE E CADA VEZ MAIS TARDE…

Filomena Leal

A fuga do tempo atormenta. Não tenho mão nele. É atroz o seu correr.
Enquanto isso, o meu trabalho avança lentamente. Indiferente ao tempo que passa.
E porquê?
Eu sei e recrimino-me: perco-me em leituras, consultas, jornais, revistas, que me sinto obrigada a ler compulsivamente. É a tradicional dispersão e múltiplos interesses que pululam na minha vida (já não falo no peso das urgências quotidianas).
 É claro que todas estas e outras vivências as ligo à literatura, e à escrita, em particular. Porque os temas e problemas a tratar são muitos, e a minha ambição é desmedida.

Comecei tarde? Foi quando o espírito e toda a mente emotiva para aí se virou. Tudo esteve adormecido durante a vida docente (com algumas incursões e intuição de que o grande Desejo lá estava, pronto a vir à superfície).
Mas a verdade é que não deixa de ser hoje, uma grande e avassaladora Emoção que me impele a Viver a escrita, como registo duma existência, e  da luta contra a cruel fugacidade do tempo.

E, afinal, nunca será tarde para isso!

ASSÉDIO

      Armando Leitão   

Roque era pacífico cidadão, introvertido, zeloso cumpridor como escriturário de empresa industrial. Dispunha de excelente cursivo, desenhava a primor  letra gótica e francesa e, perante estas qualidades, estava-lhe destinada a tarefa de escriturar  Diário e Razão no tempo em que estes magnos livros da contabilidade exigiam tais esmeros.
Na mesa de trabalho, aberta, oposta à sua, sentava-se Ildefonso, já avançado na idade, à beira da reforma que não tardou. Para o lugar do    Ildefonso a empresa despachou a telefonista Zilda, satisfazendo assim o seu insistente pedido para um lugar na Secretaria para o qual se julgava vocacionada.
À Zilda sobrava-lhe em formas e beleza física o que lhe faltava em talento para os complexos mistérios da contabilidade. Alta, morena de lábios carnudos, sensuais, peito de afrodite, elegante, pernas bem moldadas desde a base, a  natureza tinha sido pródiga com o seu corpo. Mas Zilda  errava, frequentemente, as contas e demorava eternidades a acertar, nos  balancetes, débito e crédito.

Roque, com infinita paciência, ajudava-a e  nem sequer reparava, não queria reparar,  que as pernas de Zilda, mesmo à sua frente, abriam provocadoramente e também não reparava, não queria reparar, nos mamilos impantes quando debruçada sobre a  mesa de trabalho ela pedia explicações sobre o fecho  da folha de férias.
Roque, não obstante  toda a sua aparente indiferença ia  constatando, não podia deixar de constatar, que: as saias de Zilda subiam na mesma medida em que o decote do vestido descia, a ponto de poder ver, claramente, o que se escondia nas combinações
Para fugir a tentações, desviava  olhares e o pensamento   ia todo para a  sua querida Ermelinda e rór de filhos que tinha lá em casa.

Mês após mês, Zilda persistia em olhares libidinosos, procurava, anciosa,  compreensão e benevolência para sucessivos erros que levavam dias a corrigir. Um dia, ao pedir explicações sobre matéria tributável, aproximou-se mais do superior hierárquico e, subtilmente, encostou a coxa à coxa de Roque. Este, enebriado pela carne e perfumes, desesperado, perdido, enlaçou-a pela cintura e despejou beijo sôfrego em peito arfante.

Zilda repeliu-o daquela maneira meiga que as mulheres teem de repelir quando só pretendem que as agarrem e, em desequilibro, caiu ao chão e Roque, por arrastamento, tombou sobre o seu corpo. Zilda soltou um grito de dor (ou de prazer) que mobilizou para o local todo o pessoal de escritório, que ao ver os dois naquela posição comprometedora, não queria acreditar que  pessoa  pacifica como o Roque se atrevesse a violar, ali, daquela  forma, a colega de trabalho.

Chamado à Gerencia, Roque não enveredou por desculpas tolas. Assumiu que enlaçou Zilda pela cintura, beijou-a no peito, numa tontaria de perdição. Zilda, com grande desassombro, contou que:  Roque era um senhor e não lhe interessava saber  se  o seu acto foi ou não premeditado; o que não compreendia  é que ele apenas a olhasse como escriturária e não a admirasse como mulher, tal como acontecia com todos os outros homens; foi verdade que encostou as suas pernas às pernas do  Roque apenas por imensa curiosidade, curiosidade irreprimível de ver como é que reagia, a quente, aquele homem de sangue tão enervantemente frio; o que aconteceu depois foi apenas trambolhão e não aquilo que  pessoas  maldosas pensaram.

       O médico da empresa opinou que naqueles momentos patéticos ou sublimes é a natureza e não as pessoas quem  comanda as acções.

       Perante tão abalizada opinião a Gerencia decidiu colocar os dois escriturários em secções diferentes  e arquivou  a questão.



Neste  caso tão simples e natural quem assediou quem?

Quando hoje, numa era de liberdade e libertinagem sexual,  fundamentalistas do templo,  puritanos de parlamentos,  altas esferas sociais e do estado, jornais, rádio e televisão de todo o mundo, se esforçam  por teorizar o inteorizavel assédio sexual, trago este contributo às atormentadas consciências que conferem grau prioritário à figura jurídica do assédio e relegam para segundo plano guerra, fome,  desemprego, poluição, droga,  violências e injustiças que se passeiam neste imenso jardim zoológico que é o  mundo.



Armando Reis Leitão

1980

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A FORÇA DA MENTE EM CORPO DÉBIL





                                                                                                             Filomena Leal



Um sublime e humano exemplo é o do brilhante cientista Stephen Hawking.
Aos 21 anos, é-lhe diagnosticada a doença que o viria a paralizar. 2 anos de vida foi o futuro que lhe vaticinaram. Entrou, de momento, em depressão, como seria natural com qualquer um de nós. A morte rápida que sonhou então ter,  foi sendo substituída por uma vida de grande riqueza intelectual e social, apesar de todas as limitações físicas cada vez mais agravadas. No seu livro «A Minha Breve História», ele diz:
«Penso que as pessoas com deficiência, se devem concentrar em coisas que essa deficiência não as impeça de fazer e não devem lamentar aquilo que não podem fazer. No meu caso, consegui fazer a maioria das coisas que queria».
E, no entanto, nunca deixando de se preocupar com a Origem e entendimento do Universo, fazia-o com a ajuda duma cadeira de rodas e um sintetizador de voz. O físico a degradar-se e o seu cérebro à descoberta de cada vez mais mundos e da Teoria de Tudo que já era, aliás, o sonho de Einstein. O corpo a reduzir-se com a doença a avançar, e ele a a fazer avanços cada vez maiores na Ciência, reconhecidos por toda a Comunidade da Área.
Alargou assim, o horizonte da humanidade e, para além disso, teve o talento de comunicar as suas descobertas em livros (escritos, segundo ele, com humildade e humor), e séries televisivas onde o humor também tinha papel de relevo.
Recentemente e na intervenção no Web Summut de 2017 em Lisboa, alertou para os perigos da substituição dos homens por robôs, com poder cerebral a exceder o nosso e que  ele achava possível daqui a umas dezenas de anos.
Contudo, com a capacidade de adaptação e genialidade que o cérebro humano consegue atingir, como bem o demonstrou a sua própria mente, a nossa Inteligência vai ser desafiada a nunca deixar de controlar essas máquinas tão temíveis em poder e força.
Falou pois, em todos esses perigos, ele que só conseguia falar com a ajuda de computadores!
E teve afinal, uma vida cheia - casou, teve 3 filhos, o que o levou a dizer: «Isto não seria um grande Universo, se não morassem lá, as pessoas que amamos».
Faleceu aos 76 anos.