Filomena Leal
Finais de Setembro. Vejo latadas de uvas com sabor único, a escaparem à viva e animada azáfama da vindima, nas vinhas que se estendem por toda a quinta.
A casa, de vivência presa mas poética, com a imagem ao longe das águas do Alva, ainda hoje me cheira ao mosto que subia daquele lagar da fresca adega, repleta de pipas e pipos vários. O Sr. António Modesto lá está ainda em tudo o que me lembro, a vigiar o «puro sumo da uva», como ele se referia àquele vinho «inigualável»
Contudo, todos sabiam que o vinho não se podia beber em excesso. E todos se lembravam da triste figura dos bêbados da aldeia. Mas os sentimentos misturavam-se a favor e contra.
Havia o vinho litúrgico, levantado ao som das campainhas e acompanhado das célebres palavras de Cristo aos apóstolos: TOMAI E BEBEI, ESTE É O MEU SANGUE. Era também a bebida por excelência das festas familiares, nascimentos, encontros, regressos, vitórias. A sua presença era uma constante.
O vinho foi pois, e continua a ser aquilo que faz parte de todas as celebrações, sejam elas mais íntimas, privadas ou públicas. É o prazer instantâneo de gratidão à vida e a quem nos acompanha, no momento de erguer o copo e saborear o « halo divino» que alguns vinhos possuem e fazem brilhar os olhos de quem vive o delicioso momento.
PS.Em tempos de pandemia e algum confinamento, como nos dias d'hoje, o vinho, inspirador de belíssimas páginas de sabor literário, não deixa de ser um acompanhante precioso no «engrandecimento» dum quotidiano, por vezes tão fastidiosamente fútil!!!