quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

POEMAS ESCOLHIDOS PARA FINAL DO ANO

 

                                                                                           Filomena Leal


                                                                           

            Inúmeras são do mundo as maravilhas

              Mas nenhuma que ao homem se compare

              É o ser dos recursos infindáveis:

              Até contra o futuro se faz forte;

              E cura-se dos males incuráveis ...

               Aquilo que o detém? Somente a morte.

                                                    (Sófocles-tradução de David M.Ferreira)                              

               «Quem me quiser encontrar

                terá de me procurar

                 em terras de norte e névoa

             em noites de nevoeiro e chuva

             bem p'ra além da mentira sorridente e quente

             dos dias de sol e sul»

                                     (Maria de Sousa - Cientista)

            


                         

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

POR UMA NOVA «ECONOMIA DO CUIDADO»(Desocultar e tornar visível o trabalho tão esquecido dos «profissionais» de cuidados e limpeza)



                                                                                           Filomena Leal

É duma elementar justiça reconhecer estes trabalhos - de cuidados e limpeza - como Sustentáculo essencial da vida colectiva e valorizá-los como tal.

Para além de serem mal pagos, porque desqualificados, até se pode dizer que eles não existem na própria consciência das pessoas, como integrados na economia. E isso acontece, porque uma grande parte deles é visto como sendo de «mulheres», que tradicionalmente é quem cuida e sustenta a vida familiar e doméstica. Por isso mesmo, são quase inexistentes e não exigem pagamento.

No entanto, foram os trabalhadores de cuidados e limpeza que, durante o confinamento exigido pela pandemia, continuaram sempre a cuidar dos hospitais naquilo que de básico eles necessitam. É claro que correram riscos e arriscaram a vida.

E a verdade é que, quando foi aplaudido o trabalho dos profissionais de Saúde mui justamente, o trabalho da limpeza e outros cuidados nem sempre foi lembrado, e muito menos, com a relevância que merecia.

 O modo hierárquico como funcionam as nossas sociedades terá pois, de ser alterado e substituir o conceito de Desenvolvimento pelo de Qualidade de Vida. Impõe-se assim um novo paradigma que integre este trabalho na dinâmica da Economia, dignificando-o, e a todos aqueles que o realizam.



 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

CAMINHAR AO SOM DO RITMO DAS PALAVRAS



                                                                                                                    Filomena Leal


É a caminhar que me surgem as palavras, que ouço o seu ritmo e as escrevo mentalmente.

A escrita parte do corpo, é a sua música e é aí que tudo começa. Depois, frente à folha de papel, sentada para escrever as palavras, continuo a caminhar, a ouvir o ritmo cardíaco e elas a surgirem. E com a caneta na mão, ouço um imenso clamor de vozes, a gemer de angústia, num tormento sem medida.  Mas logo tudo emudece, porque eu assim quero.

No entanto, gosto muito de ouvir. E o que eu aprendi por ouvir cuidadosamente diferentes pessoas e circunstâncias! Também na multidão de personagens tão diversas nas centenas de livros que analisei em frutuosas caminhadas mentais!

E fatigada do prazer/ cansaço de escrever, pergunto-me: o que pensarão as pessoas desta Actividade de Escrever tão envolvente? Muitas - eu sei - acham-na inútil e pouco activa. Mas saberão ou imaginarão porventura a Energia mental necessária, o conhecimento de obras literárias, culturais, da inteligência colectiva tradicional, algum talento para captar a natureza humana e construir a realidade romanesca que procura a Verdade das nossas vidas? (Sim, porque o que grassa na realidade que vivemos, é muita mentira e falsidade).

E são as palavras e o ritmo que as acompanha, a seiva viva do Acto de Escrever. É Pessoa que diz (me parece) no Livro do Desassossego, que dificilmente chora, face a qualquer evento, por mais dramático que seja, mas «há porém páginas de prosa que o têm feito chorar». (Felizmente choro mais facilmente do que Pessoa, porque chorar faz bem e alivia. Mas o choro a que se refere Pessoa é doutra natureza : é um sentir face a algo que toca as raias do absoluto, é o efeito da Arte e do génio humano na vida comum, sentida como incompleta, e ávida daquilo que toca profundamente o Ser)    

 

                                                     

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

COMO NÃO LEMBRAR A BRILHANTE CIENTISTA MARIA DE SOUSA?

 

                                                                                                       Filomena Leal


A par do impulso que a leva a dedicar a sua vida à Ciência, em que se envolve como se de paixão se tratasse, não deixa também de ser poeta. São dela as frases « A melhor Ciência está próxima da Poesia». E ainda «Se temos uma aproximação ao mundo com alguma profundidade e sensibilidade, sabe-se que o que vai durar são as palavras. E quem faz Ciência sabe que o que faz é transitório»

É, pois, mulher de 2 culturas: Ciência e Arte. Sente e vive as afinidades entre elas. E, assim é que a Beleza encontrada na Ciência através da escolha dum pedaço da natureza até ele se revelar por investigação aturada, é mui semelhante à obra do Artista, em que ele mergulha num relacionamento activo e amoroso até a finalizar (embora nunca a termine verdadeiramente).

A descoberta científica para Maria de Sousa  que inspirou tanto em Portugal como no mundo, gerações de cientistas, sempre funcionou como «um momento de êxtase muito íntimo» (segundo ela própria diz). Especializada no ramo da Imunologia, foi neste campo que ela fez descobertas importantíssimas reconhecidas internacionalmente.

Mas a sua visão ampla do mundo que não é comum a muitos cientistas, levava-a a abraçar com todo o entusiasmo a relação entre Conhecimento e Sociedade, Ciência e Arte.

E finalmente:

Preocupada como estava sempre com a Próxima Questão, é de lamentar a falta que nos vai fazer a sua investigação rigorosa e apaixonada como Imunologista, na descoberta que seria um momento de Êxtase Colectivo e Salvador nesta pandemia que tão tragicamente nos baralhou a vida.

P.S. Maria Sousa, a Cientista Poeta, deixou-nos a 14 de Abril deste ano, vítima da pandemia e contagiada na clínica onde fazia hemodiálise.  

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

LEMBRANÇAS QUE O VINHO, «O NÉCTAR DOS DEUSES», EVOCA

 

                                                                                                Filomena Leal


Finais de Setembro. Vejo latadas de uvas com sabor único, a escaparem à viva e animada azáfama da vindima, nas vinhas que se estendem por toda a quinta.

A casa, de vivência presa mas poética, com a imagem ao longe das águas do Alva, ainda hoje me cheira ao mosto que subia daquele lagar da fresca adega, repleta de pipas e pipos vários. O Sr. António Modesto lá está ainda em tudo o que me lembro, a vigiar o «puro sumo da uva», como ele se referia àquele vinho «inigualável»

Contudo, todos sabiam que o vinho não se podia beber em excesso. E todos se lembravam da triste figura dos bêbados da aldeia. Mas os sentimentos misturavam-se a favor e contra. 

Havia o vinho litúrgico, levantado ao som das campainhas e acompanhado das célebres palavras de Cristo aos apóstolos: TOMAI E BEBEI, ESTE É O MEU SANGUE. Era também a bebida por excelência das festas familiares, nascimentos, encontros, regressos, vitórias. A sua presença era uma constante. 

O vinho foi pois, e continua a ser aquilo que faz parte de todas as celebrações, sejam elas mais íntimas, privadas ou públicas. É o prazer instantâneo de gratidão à vida e a quem nos acompanha, no momento de erguer o copo e saborear o « halo divino» que alguns vinhos possuem e fazem brilhar os olhos de quem vive o delicioso momento.

 

PS.Em tempos de pandemia e algum confinamento, como nos dias d'hoje, o vinho, inspirador de belíssimas páginas de sabor literário, não deixa de ser um acompanhante precioso no «engrandecimento» dum quotidiano, por vezes tão fastidiosamente fútil!!! 


                           

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A VASSOURA, COMO INSTRUMENTO SIMBÓLICO DUM TRABALHO QUOTIDIANO VITAL



                                                                    Filomena Leal

Como nos diz o poeta Cardeal José Tolentino Mendonça, há um registo humilde que nos leva mais rapidamente a adaptar a situações novas e que se chama Vassoura. Pegar nela, mais do que em qualquer outra coisa, facilita a adequação a algo de concreto e ao ritmo do quotidiano.
Ideias, teorias relevantes decerto, não valem só por si, pois precisam duma prova de aplicabilidade adequada à realidade.
E essa entrega voluntária ao serviço prestado pela vassoura,  dá Saber e ensina-nos imensas coisas que doutra maneira, o acesso a elas seria difícil. 
E é simbolicamente o sujar as mãos no cuidar da vida, que elas se descobrem como operadoras e protagonistas da história.
Será então isso que a vassoura transmite, ao revelar o exercício prático do cuidado ínfimo, elementar, (da limpeza), e dá-nos assim a conhecer o mundo onde estamos e o que se espera de nós. E temos de imediato aqui como valor primordial de toda a comunidade, não só estético mas sanitário, a Higiene.
E... sem os Profissionais de limpeza, como seria? E será que damos o valor devido em remuneração e respeito a esta classe social? Desde o varredor de rua à funcionária da limpeza (hoje também já se vêem funcionários) que higienizam escritórios, fábricas, restaurantes, casas e tantos outros espaços, que qualidade de vida nós teríamos?
E contudo, são estes obreiros da limpeza com vassoura, esfregona e kits eficazes, para bem desempenharem o seu mister, que tornam os espaços mais habitáveis e potencialmente saudáveis. 
Alguma vez se fez a conta do VALOR disso?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

ÀCERCA DA EUTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO


                                                                                                     Filomena Leal


Não existe uma razão absoluta para a escolha da Eutanásia ou suicídio assistido. Porque na verdade, existe sempre uma razão parcial para os defensores e para os que se opõem.
E ainda bem que se pode fazer uma escolha com este grau de dificuldade - é sinal de que se vive numa comunidade com liberdade de pensar e escolher uma decisão, de acordo com os valores da maioria dos cidadãos.
O certo é que, para quem a dor da doença é insuportável, para quem quer ter o direito de morrer com uma certa dignidade e até para quem a vida não tem qualquer sentido e se quer libertar dela, não há razões para lhe negarem esse direito.
Deixar de «VIVER DE FACTO» é suficiente razão numa sociedade livre, para que uma pessoa que o queira, poder pedir a um médico ou a alguém  muito próximo e devidamente confiável que a «AJUDE A MORRER».
Viver por viver, sem a mínima motivação, é castigo, expiação dum qualquer pecado original atribuído a um «CULPADO» sem «CULPA».
Para além disso, se o homem está disposto a abdicar da sua própria vida em nome de CAUSAS E VALORES como ser livre que é, porque não usar dessa mesma liberdade, face à decisão mais importante dessa vida, ou seja, a FORMA COMO QUER MORRER?

domingo, 26 de janeiro de 2020

TERÁ O ENVELHECIMENTO CULTURAL A VER COM A IDADE?


                                                                                            Filomena Leal


Ora, o que me parece é que todo o processo de envelhecimento  (cultural, que não físico), tem menos a ver com a idade do que com a atitude que cada um de nós tem ao longo da vida, perante os desafios das novas ideias, novidades tecnológicas ou outras, das práticas sociais e políticas no seu todo, incluindo as artísticas e/ou culturais.
Tudo isto é uma questão de carácter ou temperamento individual e não de idade avançada. Eliminar a interrogação, a dúvida, a contradição, o desassossego, a transformação da nossa vida, é seguir a vereda dum progressivo envelhecimento cultural.
Assim é que, face à já banal revolução digital que introduziu aspectos novos na cultura e relações sociais, pessoas de mais idade e com formação e comportamento dinâmico perante o mundo e o conhecimento, em geral, um dilema se lhes põe.
É sabido e consensual entre psicólogos, neurocientistas e investigadores de áreas diversas que «os modos de leitura digital têm tido como consequência uma diminuição da capacidade do cérebro em interiorizar o conhecimento, promover o raciocínio analógico, desenvolver perspectivas de compreensão e empatia, estimular análises críticas, etc»  E a perda da relação física com pessoas (o que implica uma esfumada ligação afectiva) e objectos como o livro (o que induz a «uma impaciência cognitiva» relativamente a textos mais ou menos longos), é uma das consequências mais negativas nas camadas mais e menos jovens, até porque lhes veda um conhecimento profundo nas diversas áreas do conhecimento.
Então, tendo consciência de todos estes aspectos negativos do novo universo digital, estará uma pessoa envelhecida, ao recusá-lo? Ou até onde o poderá aceitar, sem afrontar a sua identidade, formada através da leitura em profundidade de livros diversos (em papel)? 
O que se poderá esperar então duma pessoa com espírito crítico e sempre ávida de novos desafios?
O MAIS NATURAL SERÁ CONTINUAR COM TODA A SUA ACTIVIDADE CULTURAL DESASSOSSEGADA E INTERROGATIVA, PROCURANDO COMPREENDER CRITICAMENTE O NOVO CONTEXTO DIGITAL E TODOS OS SEUS VELOZES AVANÇOS. 
E por que não servir-se dos funcionais instrumentos deste novo mundo, sempre que lhe sejam úteis e os saiba/aprenda a utilizar?