Filomena Leal
Evoco o texto «escrevivido» numa fase de mudança (pós-divórcio), desta vez mais pessoal e também de maior calma revolucionária. Transmite o sentir duma Liberdade e Solidão por que ansiava há muito. Tudo isso continuei a contar ao meu Pai numa Carta 2, comparando a repressão da mulher na minha Adolescência e Juventude com a situação actual e a minha, em particular. (In «A Vertigem da Liberdade») 1978/83 .
Escrevo hoje (5/1/79)sobre a solidão do 1º Natal passado só comigo, uma vez que as filhas foram para o local da tradição. Deu brado na família. Os telefonemas choveram para eu ir a casa deste, daquele, e até o tio Padre da Panasqueira ( teu irmão e afilhado) me convidou para ir até lá passar uns dias (sei que ele está curioso para saber a causa do meu divórcio, que, de certo, não aprova - e estarias tu também de acordo?) Mas a verdade é que senti como nunca a grandeza da Solidão. E uma plenitude incrível ao ouvir «La Solitude» de Leon Ferré. E estar liberta da artificialidade festiva do consumismo natalício (muito diferente das «modestas e simbólicas ofertas do teu tempo») inundava-me de Paz. Declinei convites e assegurei que me sentia bem e confortável. Os preconceitos sobre «mulher só» enchia-os a todos duma certa compaixão (não os critico, até me move uma certa gratidão) mas não podem calcular (as mentes ainda não estão preparadas) o que representa para mim, a Liberdade de estar Só. Sinto-me em boa companhia, tenho uma vida intensa e a vários níveis, a pulsar dentro de mim. E na passagem do ano, decidi divertir-me e dançar em festa de gente conhecida. Foi mais um acto de Libertação. Alternar solidão e convívio é-me, sem dúvida, um factor de equilíbrio.
NOTA: A MANEIRA DE SENTIR SITUAÇÕES E ACONTECIMENTOS VAI-SE ALTERANDO COM O ANDAR DOS TEMPOS. HOJE, EM 2022 NÃO SENTIRIA, DE CERTO, DA MESMA FORMA, A SOLIDÃO NATALÍCIA.