terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A FORÇA EMOTIVA DA POESIA

 

                                    A FORÇA EMOTIVA DA POESIA

                                                                                                           Filomena Leal


Ela não explica, ela sugere, ela toca-nos subtilmente. Usa palavras que parecem ter sido feitas à medida do nosso sentir. E, se ditas com engenho e arte, une os ouvintes por fio invisível da emoção partilhada.

Lembro um Leitor de poemas, também ele poeta e meu Mestre de Literatura. Ao ler um poema, dos muitos e vários de autores portugueses, uma corrente nos percorria de tal maneira, que tudo naquele momento ganhava foros de eternidade.

É ele o inesquecível DAVID MOURÃO FERREIRA que cantou  o Amor e a Mulher como ninguém, mas também o 1º NATAL liberto das «férreas grades abatidas».

                                             NOVO NATAL

                      Pela primeira vez não foste o feto                                                                                                              que se arriscava sempre a ser aborto

                       Pela primeira vez tens o presépio                                                                                                               sem vigilantes lâmpadas de lodo          

                       Pela primeira vez se vê de perto                                                                                                                 a cor de tantas raças no teu rosto 

                        Pela primeira vez nasces liberto                                                                                                                das algemas que tínhamos nós todos

                                                  Dezembro 1974                                                                                            

                       

domingo, 3 de agosto de 2025

ÀCERCA DA LIBERDADE NA FICÇÃO


                      

                                                                                                Filomena Leal


«A literatura imaginária é livre e esta liberdade é muitas vezes incómoda» 

Assim é que a história do romance moderno é uma luta pelo direito a dizer e pensar o que não agrada a totalitarismos com a grande obsessão de controlar. O que pode então ela fazer? "A possibilidade de imaginar o outro, permitindo-se um tipo  de conhecimento que não existe de nenhuma outra forma, indo de encontro talvez à  infinita curiosidade sobre os nossos semelhantes, desvendando por vezes as nossas facetas mais sombrias, e mesmo os demónios com que a natureza humana tanto nos espanta. É todo um acesso directo às vidas dos outros, enriquecendo assim a nossa limitada experiência." É  uma escrita circular e a que melhor responde à dispersão de tudo, ajudando-nos a percepcionar com lucidez  a complexa realidade. É o pensamento transformado em acção, a decorrer em espaços onde os factos acontecem.´                       É, também o incomparável instrumento de Resistência Subjectiva, como defende o grande romancista Milan Kundera, ele vítima resistente do apregoado «socialismo comunista».

E a verdade é que a Literatura imaginária continua a existir e dela precisamos mais do que nunca. É que as nossas verdades são diversas e há forças actuais poderosas que tudo fazem para as limitar e, se possível, destruir.




                                                                                                         

quarta-feira, 3 de julho de 2024

ESCREVER O NÃO DITO - POR TER SIDO IMPOSSÍVEL? DIFÍCIL? OU POR SER DEMASIADO TARDE?

 

                                                        Filomena Leal


            Consciente de que é por vezes tarde para dizer o que não foi dito e talvez quem sabe? indizível seria?, é de crer que será a Escrita a dar voz e a procurar as palavras testemunhas e certeiras desse tão necessário não dito.

Escrever o importante vital é, pois, o Sentir urgente duma fase final da vida que pode ser mais ou menos breve, mais ou menos longa. Mas com tanto de real que foi e um outro que podia ter sido, bem a desejo duma certa duração, para fixar pela Escrita o tempo que vivi e o que deixei de Viver por circunstâncias várias. E é aqui que entra o Imaginário com todo o poder de criar um Real outro. Inspirado em memórias vivas e de tudo o que uma vida tem de estimulante e sofrido, é ele capaz de vencer o tempo e fazer até «as coisas acontecerem outra vez». Já nem falo daquilo que poderia ter acontecido mas não aconteceu.                 E daí o Enaltecer sempre e cada vez mais a Memória e Imaginação humanas que, num trabalho interligado criam passados jubilosos e também com rasgões d'alma, como outros eivados dum futuro que poderia ter sido mas ainda poderá vir a ser, se a INTELIGÊNCIA do homem não abdicar, a favor duma inteligência artificial a que faltará sempre o sentir vital do humano. Mas  dou vivas à esperança de que o Homem a colocará no lugar devido, e saia vitorioso desta nova etapa tecnológica que o desafiará.    

E a Escrita, ligada ao que de mais genial o ser Humano inventou, continuará o seu percurso histórico deliciando-nos com obras Únicas, tantas vezes críticas do real que as inspira e/ou imaginando outros mundos sempre possíveis de virem a existir. Sim, é de confiar na Inteligência Emocional do homem, aquela que segundo estudos do cientista António Damásio, melhor poderá gerir a complexidade do nosso mundo actual, de futuro tão nebuloso!!! 

E ... regressando ao foro pessoal... 

Escrever p'ra deixar testemunho de muito do que vivi e imaginei, e daquilo que não disse e foi  quase impossível dizer, é a grande tarefa a que me obrigo.

 



                                                                                                                                                                   

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

URGE ACTUAR - GRANDE PARTE DO TERRITÓRIO ESTÁ A FICAR SEM GENTE

                               URGE ACTUAR

  GRANDE PARTE DO TERRITÓRIO ESTÁ SEM GENTE

                                                                                                 Filomena Leal


E o que é um território sem gente? Para habitar as casas, para trabalhar nas empresas (as que resistem), na agricultura, nas florestas, e nos mil e um serviços de que uma população cada vez mais velha carece?

E a assimetria entre litoral e interior torna-se verdadeiramente escandalosa. É de lamentar que ninguém dos governos passados e actual se tenha dignado fazer aquilo de que o país mais precisava - alhear-se o bastante da contagem de votos para levar a cabo uma acção um pouco «heróica», mas justa e valorizadora do território e pessoas.

Um homem ou homens com talento e Poder, sem descurarem o conhecimento da realidade, não poderiam conceber maneiras e medidas para tornarem todo o país apetecível e melhor o equilibrarem?  Tudo o que parece utopia, mais tarde ou mais cedo, por obra de homens que se destacam da vulgaridade (e o vulgar é o político  «racional» que fecha escolas, centros de saúde, correios, em aldeias e vilas que até podiam atrair pessoas que preferem mais silêncio e natureza) é REALIZÁVEL. É uma questão de Sonhar ( e o Sonho é sempre um grande transformador da realidade) com um país Coeso e uma Harmonia litoral/interior. Tanto espaço, tanto terreno desperdiçado e caótico!!!

Não teremos mentes inteligentes e empenhadas na Mudança, com Talento e Coragem para criar uma nova ordem Produtiva e Incentivadora da Fixação de pessoas (jovens e outros)?

Como o País teria então Razões para as enaltecer e HOMENAGIAR !!!                                          

O EXPRESSO, UM JORNAL DE REFERÊNCIA DO NOSSO SISTEMA DEMOCRÁTICO

 

                                                                                                           Filomena Leal


Lembro o ano de 1973, quando surge no dia 6 de Janeiro um jornal  desafiador do caquético Estado Novo. Claro é que não deixou de ser deveras incomodado pela Censura. Mas para os leitores habituais de jornais, ávidos de notícias credíveis e artigos de temas actuais e polémicos, foi um Acontecimento.                                                                                                                                                O principal Fundador - Francisco Pinto Balsemão - fôra um dos deputados da Ala Liberal que pretendia implementar medidas no terreno das liberdades. Contudo, a pretendida transição da ditadura para a Democracia foi entretanto travada, e os deputados dela defensores, passaram à Oposição. Pinto Balsemão, com uma equipa bem preparada e muito empenhada, surge com o Semanário EXPRESSO a perturbar profundamente a tão proclamada «primavera marcelista».

Recordo então o ambiente na sala dos Professores do Liceu D. Dinis, onde tinha sido colocada recentemente. Era deveras estimulante. E discutiam-se as «últimas» do EXPRESSO, que saira      no fim de semana. Todo ele já estava imbuído duma visão democrática. E na Escola o desejo de mudança pairava no ar... papeis subversivos eram postos a circular por alunos finalistas conscientes da situação. E tudo ficou mais tenso quando o Sr. reitor indaga a autoria e não resiste a chamar a polícia. Não calculou que poderia ter um «julgamento humilhante» e justiceiro em breve, como aconteceu. A Escola em peso assistiu e apoiou os alunos por ele vitimados (os excessos revolucionários!)

Passaram 51 anos. E a verdade é que «face à floresta cada vez mais densa e labiríntica das redes sociais», o EXPRESSO continua vivo e é um dos poucos jornais a funcionar como «porto de abrigo» como lhe chamou e com razão o seu Fundador.                                                                          Mil agradecimentos pois, ao Jornal Expresso e a toda a equipa que nele trabalha (em particular à da Revista que muito prezo).             

                                                                        

domingo, 2 de julho de 2023

AINDA ÀCERCA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

                      AINDA ÀCERCA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

                                                                                                                      Filomena Leal


Uma grande e preocupante questão se levanta face à  «substituição da inteligência humana pela tão exaltada inteligência artificial».
O Lançamento do ChatGPT e o processo crescente da artificialização do Humano e da sua Inteligência em particular, pode fazer-nos crer que os robots são humanos ou até mais do que isso. Sendo assim, já não seríamos precisos para nada. O nosso destino seria então o desaparecimento.  Com uma vida ociosa, sem qualquer função nem sentido, será a máquina digital construída pelo homem que pode destruir a civilização e cultura por ele desenvolvida ao longo dos séculos.
E a pergunta que grassa por aí, em particular pelos mais duvidosos e críticos: 
O FUTURO PRECISARÁ DE NÓS?
Autónoma e sem controlo, actuando em função d'objectivos, poderá criar as suas finalidades próprias, opostas às que os seus criadores humanos lhe colocaram.
Para além disso, a sua lógica é binária ou seja, um estado só pode ser verdadeiro ou falso, gerando assim erros e falsidades. A Inteligência Humana, como sabemos, permite múltiplas variações para o mesmo problema, sendo, no essencial, de tentativa, emocional e consciente.
É verdade que a IA tem uma grande capacidade de analisar e combinar uma imensidão de dados num tempo mínimo. Daí a grande publicidade do chamado ChatGPT e outras aplicações do género que, rapidamente, escreve textos de grande qualidade, constrói imagens perfeitas e imaginárias, combinando tudo de forma imprevisível e criativa. As consequências são óbvias, em especial na área da Cultura.
A sua habilidade em gerar originalidade, vai levar à extinção de milhões de empregos e profissões. Mais rápida, produtiva e mais barata do que os criadores Humanos, será contudo, a criação desta nova realidade virtual, enganadora e falseada que irá destruir os valores e princípios da nossa civilização Humana, se aqueles que a desenvolvem e a tornam autónoma, não tomarem medidas que a controlem.
Não nos pode deixar indiferente o que diz o grande linguista e investigador Noam Chomsky numa entrevista ao jornal Público de 28 de Abril de 2023:
«ESTE É O ATAQUE MAIS RADICAL AO PENSAMENTO CRÍTICO, À INTELIGÊNCIA CRÍTICA E PARTICULARMENTE À CIÊNCIA QUE EU ALGUMA VEZ VI»
                                          

quarta-feira, 31 de maio de 2023

A TRAGICOMÉDIA DA CONDIÇÃO HUMANA

                                                                                                         

                                                                                                         Filomena Leal


Inteligência artificial a substituir os humanos? ou humanos a saber tirar partido das ferramentas da IA por eles criadas?      Trata-se da Tragicomédia da Condição Humana.                               Por um lado, o desejo de criar algo que vá além dos seus limites humanos actuais. Por outro, poder dominar consciente ou inconscientemente um sistema que irá simular realidades credíveis, mas que poderão ser falsas e potencialmente perigosas. Realidades essas ilusórias, alucinadas, impossíveis de ser testadas na sua precisão ou na fonte original dos dados trabalhados. O utilizador médio não vai detectar facilmente a potencial falsidade e imprecisão daquilo que a IA irá produzir, na base de dados humanos incomensuráveis, dada a rapidez e eficácia do seu sistema. Já não é o útil automatismo a facilitar muitas tarefas humanas, mas a possibilidade de invadir territórios passíveis apenas da inteligência criativa e até ética do cérebro humano.

E responsabilidade de autor, onde está? O sistema fica naturalmente impune, embora possa ser manipulado por humanos com poder e saber para isso. Mas agora com o perigo real e inconscientemente virtual de levar a civilização humana à sua completa falência.

E a grande tragédia já por demais anunciada, duma Desumanização levada ao extremo, virá de rompante reduzir-nos ao Nada das coisas sem alma e sem uma qualquer autonomia vital.