sábado, 29 de dezembro de 2018

«REGRESSO À TERRA» segundo HANNAH ARENDT



                                                                                                Filomena Leal



«Pensadora da Terra», como lhe chama Viriato Soromenho Marques, Hannah Arendt estudou com profundidade a Física actual e a Ciência, em geral, que considera cúmplice da devastação da Terra. Reduzindo o Pensar ao calcular, a Ciência, ao criar o quociente de inteligência - é um exemplo pertinente - humilhou o homem, já que as máquinas efectuam esses cálculos mais rigorosa e rapidamente do que qualquer ser humano.
Com o avanço da Inteligência Artificial, Supercomputadores, Robótica, a Ciência Contemporânea, sem ter uma clara consciência disso, cortou as raízes da Humanidade com a Terra, como única morada dos homens no Universo.
Ao degradar a relevância da Terra e a estatura do Homem como ser mortal, contribui para destruir o planeta num Universo onde a Terra é devorada.
O que propõe então a filósofa? 
Uma Ciência de Regresso à Terra, a escolha pela Vida e pelo Senso Comum Humano, centrando-se e retomando o foco nesta nossa Casa Planetária.
Estou contigo Hannah Arendt e tua lúcida mente que previu em tempo devido, toda esta «loucura» da Ciência actual, preocupada, essencialmente, com a cada vez maior eficiência no desempenho operacional dos homens e máquinas. 
Felizmente que já existem paladinos do Conhecimento e Defesa da Terra - os Cientistas do «Sistema Terra». Eles confirmam a urgente necessidade, de contrariar a onda destruidora das condições propícias à Vida e Civilização, criadas pelo Homem.
Não existe um outro planeta como a Terra.
Temos de viver neste e salvá-lo.     

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

«O AMOR É» de Júlio Machado Vaz e Inês Meneses




                                                                                                               Filomena Leal



Já o saudoso Eduardo Prado Coelho na sua Crónica diária do Público, se referia ao prazer que sentia ao ouvir pela manhã a conversa «Amor É» de Júlio Machado Vaz com Ana Mesquita (em 2005).
Uma conversa que continua actualmente com a jornalista Inês Meneses (aos microfones da Antena 1). E em boa hora decidiram resumir essas conversas num interessante livro O Amor É - Para Memória Futura. 
Deparamos assim com uma visão das muitas questões sobre o Amor, de 2 pessoas geracionalmente diferentes (69 e 47 anos). O resultado é um equilíbrio, temperado pela vivência e conhecimento de cada um, de acordo com o seu tempo e idade.
Falam da solidão no amor, nos amores felizes, rupturas, do sacrifício da Amizade no altar do Amor, e de inúmeros problemas, ligados à principal temática.
Escalpelizam canções e poemas de nomes conhecidos, discutem as «fraquezas desculpáveis», o ardor amoroso, a nostalgia da ternura, a necessária dimensão dum doce combate para evitar o «Amor» aborrecido - enfim, uma infinidade de questões relevantes ( inclusive o crescimento dos filhos e relação recíproca).
Mas a mensagem final sobre o Amor é esperançosa:
 «Amar é ter disponibilidade para cuidar, ouvir, animar».
 E tem, decerto, potencialidades enormes para dar aos amantes um grau de felicidade (momentânea ou contínua), de grande importância na vida de todos nós   

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

SEXO E AMOR- de ALBERONI




                                                                                                  Filomena Leal


É um livro cujo tema me interessa e reli algumas passagens.
Parece-me explorar toda a gama de experiências sexuais/amorosas. 
Leio sobre a união frenética dos corpos à da fusão das almas, da sexualidade mais básica à mais subtil. Mistura conversas, relatos de vida, desejos inconfessados, contraditórios, razões e factos que quereríamos ignorar.
Científico? Sem piedade?  É acima de tudo, humano e a transbordar de vida autêntica e real.
Fruto da experiência, dum envelhecimento lúcido?
É, me parece, um livro de sabedoria no que se refere a este magno problema que é o da relação Amorosa/Sexual.

OS MEUS MÓVEIS PREDILECTOS




                                                                                               Filomena Leal


A minha relação com estantes, secretárias e mesas, cadeiras e cadeirões, é antiga e muito peculiar. Perco o norte quando vejo bibliotecas cheias de livros, instalados caóticamente ou não, em estantes sempre finitas.
Não me atraem quaisquer outros móveis.
Para mim, é uma secretária assim, uma estante assado que passam a ser animadas e com «alma», se são minhas e delas disponho. Têm o ar de seres discretos, encostados ou não à parede, funcionais e com alguma nobreza.
A arrumação dos livros e revistas é naturalmente descuidada. Até porque, quando presente, estou sempre a mexer neles e a dar atenção ora a este ora àquele - uma frase, um capítulo, tudo é lido ou relido e de cada vez, o sabor é diferente e com mais sentidos... Se não tivesse outras coisas com interesse e diferentes a chamarem-me, decerto prolongaria este prazer!
Como me sinto grata à Vida e Universo por Saber Ler e ter muitos Livros! E como são diversas e variadas as Viagens que fazemos através deles!...

SABORES DOS TEMPOS



   
                                                                     Filomena Leal


Quinta, almoços, assados no forno, fazer pão.
É confortável, azafamado, apaziguante, mas por vezes há algo que é excessivo na preocupação com a comida.
Resquícios d'outras eras? em que me sentia «um pau de virar tripas» e não apreciava comer?
 Desde quando comecei a gostar disso?
 Rezam as crónicas (Há quanto tempo!) que foi em bons restaurantes e uma companhia romântica, boa paisagem, conversa estimulante, a fazer-me penetrar nos Sabores (até nos bons vinhos...).
A baía de Cascais testemunhou estes repastos como pano de fundo. 
HÁ QUANTO TEMPO! 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O PRAZER DE PENSAR




                                                                                                 Filomena Leal



«Todas as coisas são mesa para o pensamento» (Herberto Helder)
A mesa sempre posta. E o pensamento sempre a petiscar, detendo-se mais neste ou naquele petisco. Entra nele e deleita-se ou não. Valoriza o que bem lhe sabe, estudando os ingredientes e estabelecendo entre eles relações metonímicas e metafóricas. E pensa o que não é comum pensar quem não pensa. E quem pensa fá-lo com prazer. Seja mesmo àcerca da mais ínfima das coisas. E pensar a vida, o mundo, a arte, o que haverá de mais prazeroso?
É a grande marca do ser humano: Pensar. E a mais estimulante.
Pois o que seria o homem a movimentar-se apenas, a actuar sem pensar, numa básica busca de sobrevivência - a ter sensações sem poder nem saber descrevê-las, nem significá-las?

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

REGRESSO À ESCRITA




                                                                                                          Filomena Leal


De novo no meu dia a dia das pequenas tarefas e do Sentimento da Tarefa  maior que tenho em mãos. Este cilindrar do quotidiano, ir aqui, ali, tratar disto, daquilo, desvia-me completamente do que é mais importante para mim - a Escrita.
Papeis e reflexões anotadas são em grande quantidade (quase me sinto perdida, mas logo encontro o essencial do que pretendo) e não tendo nada organizado, é difícil pôr-me a escrever, abstraindo-me de tudo o mais.
Foi isso que tentei fazer, colocando no sítio certo os elementos de cada conto, do romance e até dos temas para artigos.
Sentada então frente ao papel em branco, tudo se me vai desatando e me parece com algum sentido. Terei eu algum talento? Também, se o tiver, é o único e por isso nada me resta, senão explorar este. 
Daí o meu sentimento de culpa quando não escrevo e não chego a fazer 1/4 do que programo! Porque a verdade é que me perco muito em minudências, a contemplar, a monologar, numa corrente de pensamentos que não pára, evocando acontecimentos, avaliando pessoas, justificando atitudes, fundamentando posições, num saltitar sem peias, sempre a laborar... Uma mente deveras danada!!!
Com tudo isto, sinto-me à noite esgotada - mas feliz, se tiver escrito algo que me satisfaça...( o conceito de felicidade é deveras muito pessoal e tem pouco a ver com o SER FELIZ
publicitário tão apregoado e que até pode influenciar alguns espíritos ávidos de ideias para o serem).

Mas o tempo urge, e ele é tão pouco para o mundo que sonho criar!...

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O SENTIR «OUTONAL» DA MÚSICA DE VIVALDI



                                                                                                       
                                                                                                       Filomena Leal



A Música é a expressão artística que mais me deleita. É através dela (e de algumas músicas clássicas como esta ou até mais ligeiras) que me abeiro do sentimento de plenitude da vida, um quase absoluto que está muito para além do sentir comovido do quotidiano. A Poesia (e lembro a magia dum poema dito por David Mourão Ferreira nas suas inquietantes aulas de mestrado), a Pintura, um inesquecível Romance, um Filme envolvente, tudo isso constitui grande Prazer na vida.
Com a Música, porém, passa-se algo de diferente. É um Chorar de violino, um Choro grato por me ser dado viver um pedaço de eternidade que me faz esquecer a efemeridade de tudo. É um não sei quê de nostálgico mas belo, um sentir em pleno o valor  da Arte como o que de superiormente Humano existe. É nestes momentos que vejo o Homem muito próximo do divino, ao criar tais maravilhas.
Só lamento que nem toda a gente (por não querer ou não ousar querer) usufrua de momentos tão divinais como estes...

A Ideologia Consumista dominante até concede felicidade, mas é momentânea e traz um vazio posterior Interminável.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

AQUILINO RIBEIRO - UM GRANDE CONSTRUTOR DA LÍNGUA




                                                                                                     Filomena Leal



Olho o retrato de Aquilino Ribeiro (o Mestre Aquilino), e ao mergulhar  um pouco no seu universo multifacetado, vejo nele, de imediato, um grande Construtor da Língua.
A Casa Grande de Romarigães é uma obra de gigante.
Numa entrevista da Antena 2 gravada e que ouvi de novo há pouco tempo, a sua voz firme sempre ao encontro do humano, como exigência ética e a sua frase tão conhecida «Morro de enxada na mão», mostra bem o que representava para si a Escrita. Apesar de muitos o tentarem apoucar, a Confraria Aquiliana de Viseu, com o lema do Mestre «Alcança quem não cansa», conseguiu a grande homenagem: instalá-lo no Panteão. Não precisaria disso para ser Imortal, mas foi-lhe feita Justiça.
Dar-lhe vida na leitura ou releitura da sua obra, é o que ele e 
nós (enriquecidos com tudo o que nele encontramos) precisamos urgentemente de fazer.

domingo, 12 de agosto de 2018

ATÉ AOS 120 ANOS?




                                                                                             Filomena Leal



A emergência de uma nova geração, de uma 5ª idade, far-se-à neste 3º milénio.
A longevidade humana aumenta, de facto, mui rapidamente: 1 ano a mais todos os 4 anos, em média, nos países desenvolvidos, e este número parece chegar rapidamente aos países em vias de desenvolvimento, graças aos reais progressos de higiene pessoal e alimentação.  Em 1995, cerca de 80% das mulheres na Europa chegava aos 85 anos. Extrapolando, podemos dizer que 1 em cada 2 rapazes que nasça em 2000, viverá até aos 100 anos. Uma média de 120 é uma perspectiva consensualmente aceite e plausível.
Se a tendência é para caminharmos para os 120 anos, o problema será aguardar esta idade com uma vida agradável, tanto em termos físicos como psicológicos.
A questão essencial então será : COMO ENVELHECER BEM ATÉ AOS 120?
A resposta será a melhoria do ambiente e tratamentos de substituição para compensarem as falhas de regulação das hormonas. Mas nada dará mais sentido à vida duma pessoa de idade,isto é, dum velho, do que ter múltiplos interesses, com a Leitura e Arte particularmente relevantes.

terça-feira, 31 de julho de 2018

SOBRE LEITURA E LIVROS




                                                                                                Filomena Leal



Harold Bloom dizia que «para ler nunca haverá demasiado tempo». E assim é.
Sinto que a vida é curta e o tempo pouco, para ler e reler tudo aquilo que gostaria.
Há livros que precisam de ser relidos, para se captar todo o prodigioso que encerram. Há livros até que são de cabeceira: por mais que se leiam, não saciam a fome dos múltiplos sentidos, das pequenas frases que abrem horizontes. 
E sempre outros.
A necessidade interior de viajar, correr mundo e conhecer pessoas, pode ser satisfeita através  da  leitura. Por vezes até lendo fragmentos apenas de livros possuídos mas ainda não lidos, ou dos quais se ouviu falar com ênfase a ensaístas de nomeada.
Sim, porque os autores só têm a ganhar com as múltiplas e diversas leituras de especialistas, aos seus livros.
Que de subjectividades a comentar o mesmo livro!!!
E como pequenos detalhes analisados por quem sabe ler, nos podem dar visões do mundo do próprio autor de que ele (imagine-se!) nem sequer tinha consciência!
Mas a verdade é que tenho muitos livros que gostaria de ler
e até de reler, mas o tempo, sempre, sempre a correr não deixa...
  

sábado, 28 de julho de 2018

É URGENTE LUTAR CONTRA A DESERTIFICAÇÃO DAS ALDEIAS E VILAS DO INTERIOR




                                                                                            Filomena Leal


Com medidas radicais e destemidas, sim.
Os estudos estão feitos, proclama-se a coesão territorial, mas existe um Estado hipercentralizado, incapaz de olhar para o país  como um todo, condenando há décadas 3/4 do território à desertificação.,
Bem diz Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares que os problemas do País e a luta contra o despovoamento tem de ser um «desígnio nacional», mas tudo isso será para quando? Sempre e cada vez mais tarde, sem a possibilidade de «inverter» e até de  «suster» a situação?
Os interioristas, os poucos que ainda resistem e lutam pela sobrevivência, valorização e relativo desenvolvimento das suas terras, ficarão mais uma vez entregues ao determinismo  da «inevitabilidade» de que há pouco a fazer naquelas terras tão longínquas dos grandes centros que é «onde tudo existe e tudo se decide»?
E todos os sinais que se deram ao fechar escolas, fazer desaparecer postos de saúde e de correio e outros serviços públicos de 1ª necessidade? Que mensagem se manda a alguém que até pode estar a ponderar instalar-se no território onde o  Estado foi saindo sempre com o pretexto de não haver pessoas?
Tudo isto afinal, acompanhado pela contínua quebra demográfica.
Para além disso e com muita relevância, o investimento com os fundos estruturais, onde se tem concentrado? Nas zonas mais desenvolvidas, incluindo Lisboa. Entretanto, medidas de descriminação positiva há muitas, mas algumas aquém da urgência necessária, sem data sequer para entrarem em vigor.
Foi a tragédia dos fogos que fez com que os políticos se dignassem olhar para 3/4 do território nacional com olhos de ver e até de espanto! Repararam então que faltava a mão do homem a tornar a natureza menos bravia e mais à sua medida.
A terra foi abandonada e os senhores do Poder há mais de 40 anos, nada fizeram para reter a população. O êxodo foi dantesco, no interior diminuiu 37,5%, enquanto no litoral aumentou 52%. Um desiquilíbrio sem igual. Não teria sido possível seguir o modelo de desenvolvimento dos espanhóis onde vilas e cidades médias foram capazes de reter a emigração nas zonas de origem? ( e nós sabemos que famílias jovens e menos jovens, saturadas da vida alienante e cansativa das grandes cidades e arrabaldes, ao instalarem-se em terras do Interior, sentem uma mudança qualitativa nas suas vidas. Até porque os recursos naturais são imensos para quem os sabe valorizar, e as condições de vida já não são propriamente as mesmas de há 40 anos).
Ao percorrer este país com casas, ruas e aldeias fechadas (algumas recentemente queimadas), com uma escassa população de velhos que tiveram uma vida hiper-activa no passado, sós e sem o afecto das suas gentes, sente-se o abandono a que o Estado os votou, retirando-lhes ainda os serviços de proximidade. Quem os compensará daquela nota de alegria dada pelo chilreio de crianças (poucas que sejam) duma Escola do 1º ciclo? 

sábado, 30 de junho de 2018

DESVALORIZAR AS HUMANÍSTICAS É DEPRECIAR VALORES FUNDAMENTAIS




                                                                                                 Filomena Leal



Parece realmente existir a ideia de que as sociedades ocidentais sacrificaram o papel  das Humanidades na formação dos educandos. 
História, Filosofia ou Literatura perderam espaço na carga horária e currículos escolares. A técnica e Ciência começaram a ser propagandeadas como o grande baluarte do desenvolvimento.
Nada tenho contra elas (sempre acompanhei as conquistas da Ciência e até das Novas Tecnologias com bastante interesse), mas não chegam para dar resposta aos anseios mais profundos do ser humano. E assim é que acabam por nele criar um grande Vazio, conduzindo-o à ideologia do Consumo, a grande máxima do sistema neo-liberal em que o Dinheiro é tudo e tudo justifica.
E eis que a hecatombe surge.  Como iremos sair desta globalização fraudulenta, selvagem e sem regras, quando tanto nos parecia prometer? 
Afinal, destruiu (ou enfraqueceu) valores de sempre, por algo sedutor, mas frágil  e demasiado inseguro. 

terça-feira, 26 de junho de 2018

O CÉREBRO E SUA COMPLEXIDADE




                                                                                           Filomena Leal

Reli o livro do escritor inglês David Lodge sobre CONSCIÊNCIA E ROMANCE e entusiasma-me sempre a sua leitura. Nele concluo mais uma vez que o fluir da Consciência nas personagens do Romance moderno, não é linear. E isso é bem o sinal de que são os poetas e romancistas os primeiros a intuir fenómenos àcerca da natureza humana que serão mais tarde analizados e por vezes provados pela Ciência. É o caso da própria Consciência que cientistas como António Damásio, reconhecem localizar-se no cérebro, o grande Processador de mil programas. Nele, emoção e sentidos têm um grande papel que o Consciente muitas vezes ignora (e é aqui que entra a importância que os neurobiólogos dão actualmente à Psicanálise de Freud com a «descoberta» do Inconsciente).
O Cérebro é afinal, aquele pandemónio que recebe simultâneamente montanhas de informação e a tem de ordenar, não por Secções, mas Associando-a.
E nisto consiste a grande complexidade do cérebro feminino, onde são mais visíveis todas as conexões do tumultuoso mundo cerebral.
E o do homem funcionará  tal e qual?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

ANTÓNIO ARNAUT E O SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE - O SEU BELO E GRANDIOSO «POEMA»



                                                                                              Filomena Leal


O grande «poema» da sua vida e o que mais mudou a vida dos portugueses. Foi assim que o poeta e «homem do povo»  classificou o maior e melhor serviço que a Revolução de Abril trouxe a todos nós. 
Escreveu muito e alguns poemas, mas o Serviço Nacional de Saúde foi, sem dúvida, o que resultou, com um êxito sem precedentes, duma luta persistente e generosa por melhores condições de vida a uma população, até aí tão carente de apoio na doença e sem recursos materiais para se tratar.
E eis que foi a Saúde a guindar-nos a altos níveis no contexto dos países desenvolvidos. É de destacar aqui os cuidados de assistência à maternidade e primeira infância, um dos grandes triunfos da medicina Pública, com estatísticas de 1ºMundo.
Nunca António Arnaut se esqueceu do mundo rural e «deserdado» em que nasceu, e do sonho de nele introduzir mudanças, caso tivesse poder para tal. Apesar de muitas resistências e contestação, foi sempre em frente e em Setembro de 1979 a «controversa»lei do SNS entra em vigor. E pobres e ricos dele começaram a beneficiar, pois durante muitos anos foi um sistema de quase excelência. E é o próprio António Arnaut que recentemente terá dito: «EU ESTOU VIVO, GRAÇAS AO SNS. DE OUTRA FORMA, NÃO TERIA TIDO DINHEIRO PARA FAZER TANTAS ANÁLISES, TANTOS TRATAMENTOS...»
Liberdade, igualdade e justiça social eram os seus valores que defendia inabalavelmente, sem estar sujeito a pressões ou interesses.
É de realçar também a sua veia literária, de que o romance Rio de Sombras (2007) é um bom exemplar. Assim, para além da sua última mensagem pública em defesa do SNS, que, segundo ele, «enfrenta uma crise profunda», sugere então «a leitura dos seus livros para quem o quiser conhecer melhor».
E a importância da ética no desempenho dos cargos públicos, não deixará de estar presente em todos eles, como esteve continuamente na sua Vida de Homem Bom e Lutador pelo que é Justo.

terça-feira, 29 de maio de 2018

ÀCERCA DO «AMOR INFINDO» PELOS ANIMAIS (IRRACIONAIS - É ÓBVIO)



                                                                                                           Filomena Leal


Sempre fui temerosa dos animais: dos mais insignificantes, quase invisíveis, aos maiores, sempre os olhei com muita reserva. Podem ser obreiros (como as formigas), com organização exemplar (caso das abelhas), dedicação extrema ao dono (como os cães), independência e caçador de ratos (dever dos gatos que actualmente já nem isso fazem - são as cobras a fazer esse trabalho). Falta-lhes porém, a razão e consciência do que fazem ( há quem diga que até isso têm, que só não podem falar, o que é de «somenos importância»).
Sempre os considerei imprevisíveis - podem atacar-nos pela calada, sem nos apercebermos, ou saltar sobre nós, sem disso estarmos à espera (caso do gato ou de alguns cães).
Podem dizer-me que também os humanos podem fazer isso, mas há regras sociais e legais conhecidas por eles, no sentido de prestarem contas à sociedade daquilo que de mal fazem.
Depois, o Espaço urbano está de tal modo conspurcado ( e agora a razão é outra) por «animais sencientes não humanos» e uma cultura animalista tão fanática, que, por vezes, são desrespeitados os direitos das pessoas, face à tolerância «devida» a seres que não sabem o que fazem.
A entrada dos animais que noutros tempos andavam à solta nas quintas e quintais, para dentro das casas, tornou-os credores de direitos humanos, sem lhes exigirem nem poderem fazê-lo, um comportamento humano. E é assim que os «animalistas» acabam por tolerar e exigir que os outros tolerem o «intolerável» em qualquer ser humano.
Sofrerei de «animalfobia? Não será mais negativo enclausurar os animais, tirando-lhes a liberdade?
Declaro que gosto de tratar bem os animais próximos do homem, até reconheço a dedicação e graça de alguns, mas é só isso e nada mais... 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

UM SOL RADIOSO QUE OFUSCA E UMA ÁGUA BARULHENTA QUE ACALMA



                                                                                 Filomena Leal


Foi na passada 5ªfeira, dia 17 de Maio. O Sol brilhante, abraçava a montanha com fulgor. Senti de imediato, grande incómodo. Nem sabia o que fazer: com tanta luz a penetrar nos recantos mais recônditos e secretos, era difícil ver o que estava para além do iluminado - o olhar paralizava.
Sempre me senti ofuscada com a intensidade da luz solar. Ela corta-me a visão, o desejo de pensar com os olhos o que vejo e acima de tudo o que não vejo - o suscitado pelo que está à vista. Com luz excessiva não há mesmo nada a vislumbrar - é só o que se vê, sem deixar ver mais nada.
Claro que, com este excesso de sol febril, só poderia compensar-me, caminhando até à ribeira. Aí , sim, mais indirecto, e o som contínuo da água a cair, o próprio Sol ficou mais que gostoso! E também apreciei assim melhor a beleza daquela água que sem desfalecer, sem recuos, seguindo sempre o seu caminho, por vezes com mais ímpeto, dando mais uma voltinha, desviando um pouco p'ra aqui, outro p'ra ali e eis que retoma todo o caudal sempre a direito, sem hesitações.
Fascina-me ver e sentir correr e cair a água assim pura, plena, desamparada, aparentemente sem destino.
O mar, as ondas, são outra coisa! Há um ritmo, um movimento de cólera que depois se desfaz. Há um acumular de energia silenciosa que se vai alteando em vagas enormes e barulho ensurdecedor. Depois, é só espuma.
Sem dúvida que é a Água da ribeira, furibunda por vezes, a gerar-me aquele equilíbrio cósmico de que frequentemente careço.
Cheguei a casa e eis que me esperava um entardecer dourado ...

 «GRACIAS À LA VIDA»foi, então, a canção que me apeteceu ouvir!..

domingo, 6 de maio de 2018

O JORNAL DO FUNDÃO - UMA VOZ COM FORTE LIGAÇÃO ÀS GENTES E TERRAS DO INTERIOR



                                                                                         Filomena Leal



Vem o tema a propósito duma notícia lida no Expresso e no próprio jornal, de que a Família de António Paulouro, o seu grande Fundador, iria deixar «com mágoa, de ter qualquer responsabilidade nos destinos do Jornal do Fundão» Fim de ciclo - dizem. Mas que outro ciclo se iniciará? Continuará a nortear-se pela visão pluralista e lutadora do seu Fundador e que tão brilhante e empenhadamente prosseguiu com a Direcção de Fernando Paulouro?
Quando há tempos, este se demitiu, preocupei-me. Sempre foi um jornal, onde semanalmente lia com grande expectativa e vivo interesse o seu editorial. Num misto de defesa de causas sociais e culturais, a sua batalha era contínua. E, para além disso, tinha um modo de escrever vincadamente poético e nada vulgar, deveras aprazível de ler.
E o legado ético do seu Antepassado, definido desde a Fundação do Jornal «estaremos  ao lado dos que trabalham e dos que sofrem, numa fraterna compreensão que não é de hoje, mas de sempre», continuou sempre com as lições históricas dum passado resistente, de que a mais célebre e sempre lembrada foi o apoio à luta dos Mineiros da Panasqueira.
Depois, lembro o clamor persistente da Voz deste Jornal, a reclamar direitos continuamente adiados. Assim aconteceu com o regadio da Cova da Beira, o túnel da Gardunha, com a auto-estrada e outras realizações importantes. Também não posso esquecer as Jornadas da Beira Interior dos anos 80 em que participei e muito aprendi. Aí se debateram os imensos e diversos problemas existentes, com gente especializada e conhecedora das várias áreas do Desenvolvimento Regional.
Continuaram sempre a ser promovidas e a denunciar a desatenção sistemática com que o Poder tem olhado  para as Terras do Interior. 
Só espero que neste novo ciclo, a sua Voz desafie esse mesmo Poder a criar um País coeso e harmónico, onde a população se possa distribuir e escolher onde quer realmente viver. E que as justas e vitalizadoras propostas do tão oportuno MOVIMENTO DO INTERIOR agora em acção, sejam devidamente destacadas e mesmo debatidas.



segunda-feira, 23 de abril de 2018

VIAGEM MENTAL A UM TEMPO ÚNICO


         
                                                                 Filomena Leal

Parecia sonho. Mas não, foi tudo real.
A memória está viva desse Tempo Novo, daqueles dias de Liberdade exaltante e dos Sublimes Instantes então vividos.
No liceu D. Dinis, o meu Espaço docente de muitos anos, Mobilizar (uma palavra nova, adormecida até então no Dicionário) foi a poção mágica para tornar possíveis sonhos de mudança duma realidade castradora e sem futuro. O Direito à Educação e Cultura abriu as portas da Escola elitista a todo um povo, de tudo isso tão carente. Alunos e Professores uniram-se para operar a Mudança. E um Reitor que, recentemente, face a uns panfletos «subversivos», fizera entrar a Pide naquele Espaço, foi, segundo as novas regras revolucionárias, destituído em plenário. 
Então, Comissões eleitas democraticamente, começaram a dirigir o liceu. Actividades múltiplas, estudos pedagógicos adaptados à nova realidade, visitas a jornais, museus, a empresas, (tentou-se desde logo, prestigiar o trabalho manual), muitos debates dos mais variados temas, sessões com escritores, actores, e outros resistentes que sofreram a censura e torturas fascistas, tudo isso dinamizou o ambiente.
Também a situação política e a Liberdade, um dos principais valores da Revolução, não podia ser descurada. Porque, afinal, nada estava assegurado. Após um 1º de Maio, pleno de cravos vermelhos, solidários e felizes, todos unidos contra o regime fascista derrubado, surgem as primeiras nuvens a toldar essa marcante felicidade. Várias forças políticas, algumas passadistas, entram em acção. Então, a luta pelos novos Valores, fazia voar todos os que os defendiam. E o desapego dos bens materiais, para que Todos tivessem acesso a pão, saúde e habitação, era vulgar em muitos militantes da Revolução. Foram dias Esplendorosos, por sentirmos ser possível melhorar a vida de muita gente.
Depois houve cenas inolvidáveis, como a emocionante Saída dos Presos Políticos de Caxias. Eram caras de espanto à mistura com lágrimas duma alegria incrédula… E tudo isto, graças à heroica e competente Acção do «Movimento dos Capitães». Assim, quando Dinis de Almeida, qual herói romântico, belo e compenetrado da sua missão, saía do Ralis na sua Chaimite, levava de imediato com salva de palmas agradecidas. E com todos os «Capitães de Abril» acontecia o mesmo (falo no Dinis de Almeida, porque o liceu era perto do Ralis e íamos lá frequentemente no intervalo das aulas).
Também a Guerra colonial teve de acabar. Era o grande drama dos jovens que por lá morriam ou regressavam estropiados e sem conserto possível.
E a mulher, tão menorizada pelo regime? Eis que começa a vir para a rua, tomando consciência dos seus direitos e da luta necessária para os fazer valer.
E FOI ASSIM AQUELE TEMPO, QUE PARECIA NÃO TER TEMPO...                                                                                                   



sexta-feira, 13 de abril de 2018

É SEMPRE E CADA VEZ MAIS TARDE…

Filomena Leal

A fuga do tempo atormenta. Não tenho mão nele. É atroz o seu correr.
Enquanto isso, o meu trabalho avança lentamente. Indiferente ao tempo que passa.
E porquê?
Eu sei e recrimino-me: perco-me em leituras, consultas, jornais, revistas, que me sinto obrigada a ler compulsivamente. É a tradicional dispersão e múltiplos interesses que pululam na minha vida (já não falo no peso das urgências quotidianas).
 É claro que todas estas e outras vivências as ligo à literatura, e à escrita, em particular. Porque os temas e problemas a tratar são muitos, e a minha ambição é desmedida.

Comecei tarde? Foi quando o espírito e toda a mente emotiva para aí se virou. Tudo esteve adormecido durante a vida docente (com algumas incursões e intuição de que o grande Desejo lá estava, pronto a vir à superfície).
Mas a verdade é que não deixa de ser hoje, uma grande e avassaladora Emoção que me impele a Viver a escrita, como registo duma existência, e  da luta contra a cruel fugacidade do tempo.

E, afinal, nunca será tarde para isso!

ASSÉDIO

      Armando Leitão   

Roque era pacífico cidadão, introvertido, zeloso cumpridor como escriturário de empresa industrial. Dispunha de excelente cursivo, desenhava a primor  letra gótica e francesa e, perante estas qualidades, estava-lhe destinada a tarefa de escriturar  Diário e Razão no tempo em que estes magnos livros da contabilidade exigiam tais esmeros.
Na mesa de trabalho, aberta, oposta à sua, sentava-se Ildefonso, já avançado na idade, à beira da reforma que não tardou. Para o lugar do    Ildefonso a empresa despachou a telefonista Zilda, satisfazendo assim o seu insistente pedido para um lugar na Secretaria para o qual se julgava vocacionada.
À Zilda sobrava-lhe em formas e beleza física o que lhe faltava em talento para os complexos mistérios da contabilidade. Alta, morena de lábios carnudos, sensuais, peito de afrodite, elegante, pernas bem moldadas desde a base, a  natureza tinha sido pródiga com o seu corpo. Mas Zilda  errava, frequentemente, as contas e demorava eternidades a acertar, nos  balancetes, débito e crédito.

Roque, com infinita paciência, ajudava-a e  nem sequer reparava, não queria reparar,  que as pernas de Zilda, mesmo à sua frente, abriam provocadoramente e também não reparava, não queria reparar, nos mamilos impantes quando debruçada sobre a  mesa de trabalho ela pedia explicações sobre o fecho  da folha de férias.
Roque, não obstante  toda a sua aparente indiferença ia  constatando, não podia deixar de constatar, que: as saias de Zilda subiam na mesma medida em que o decote do vestido descia, a ponto de poder ver, claramente, o que se escondia nas combinações
Para fugir a tentações, desviava  olhares e o pensamento   ia todo para a  sua querida Ermelinda e rór de filhos que tinha lá em casa.

Mês após mês, Zilda persistia em olhares libidinosos, procurava, anciosa,  compreensão e benevolência para sucessivos erros que levavam dias a corrigir. Um dia, ao pedir explicações sobre matéria tributável, aproximou-se mais do superior hierárquico e, subtilmente, encostou a coxa à coxa de Roque. Este, enebriado pela carne e perfumes, desesperado, perdido, enlaçou-a pela cintura e despejou beijo sôfrego em peito arfante.

Zilda repeliu-o daquela maneira meiga que as mulheres teem de repelir quando só pretendem que as agarrem e, em desequilibro, caiu ao chão e Roque, por arrastamento, tombou sobre o seu corpo. Zilda soltou um grito de dor (ou de prazer) que mobilizou para o local todo o pessoal de escritório, que ao ver os dois naquela posição comprometedora, não queria acreditar que  pessoa  pacifica como o Roque se atrevesse a violar, ali, daquela  forma, a colega de trabalho.

Chamado à Gerencia, Roque não enveredou por desculpas tolas. Assumiu que enlaçou Zilda pela cintura, beijou-a no peito, numa tontaria de perdição. Zilda, com grande desassombro, contou que:  Roque era um senhor e não lhe interessava saber  se  o seu acto foi ou não premeditado; o que não compreendia  é que ele apenas a olhasse como escriturária e não a admirasse como mulher, tal como acontecia com todos os outros homens; foi verdade que encostou as suas pernas às pernas do  Roque apenas por imensa curiosidade, curiosidade irreprimível de ver como é que reagia, a quente, aquele homem de sangue tão enervantemente frio; o que aconteceu depois foi apenas trambolhão e não aquilo que  pessoas  maldosas pensaram.

       O médico da empresa opinou que naqueles momentos patéticos ou sublimes é a natureza e não as pessoas quem  comanda as acções.

       Perante tão abalizada opinião a Gerencia decidiu colocar os dois escriturários em secções diferentes  e arquivou  a questão.



Neste  caso tão simples e natural quem assediou quem?

Quando hoje, numa era de liberdade e libertinagem sexual,  fundamentalistas do templo,  puritanos de parlamentos,  altas esferas sociais e do estado, jornais, rádio e televisão de todo o mundo, se esforçam  por teorizar o inteorizavel assédio sexual, trago este contributo às atormentadas consciências que conferem grau prioritário à figura jurídica do assédio e relegam para segundo plano guerra, fome,  desemprego, poluição, droga,  violências e injustiças que se passeiam neste imenso jardim zoológico que é o  mundo.



Armando Reis Leitão

1980

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A FORÇA DA MENTE EM CORPO DÉBIL





                                                                                                             Filomena Leal



Um sublime e humano exemplo é o do brilhante cientista Stephen Hawking.
Aos 21 anos, é-lhe diagnosticada a doença que o viria a paralizar. 2 anos de vida foi o futuro que lhe vaticinaram. Entrou, de momento, em depressão, como seria natural com qualquer um de nós. A morte rápida que sonhou então ter,  foi sendo substituída por uma vida de grande riqueza intelectual e social, apesar de todas as limitações físicas cada vez mais agravadas. No seu livro «A Minha Breve História», ele diz:
«Penso que as pessoas com deficiência, se devem concentrar em coisas que essa deficiência não as impeça de fazer e não devem lamentar aquilo que não podem fazer. No meu caso, consegui fazer a maioria das coisas que queria».
E, no entanto, nunca deixando de se preocupar com a Origem e entendimento do Universo, fazia-o com a ajuda duma cadeira de rodas e um sintetizador de voz. O físico a degradar-se e o seu cérebro à descoberta de cada vez mais mundos e da Teoria de Tudo que já era, aliás, o sonho de Einstein. O corpo a reduzir-se com a doença a avançar, e ele a a fazer avanços cada vez maiores na Ciência, reconhecidos por toda a Comunidade da Área.
Alargou assim, o horizonte da humanidade e, para além disso, teve o talento de comunicar as suas descobertas em livros (escritos, segundo ele, com humildade e humor), e séries televisivas onde o humor também tinha papel de relevo.
Recentemente e na intervenção no Web Summut de 2017 em Lisboa, alertou para os perigos da substituição dos homens por robôs, com poder cerebral a exceder o nosso e que  ele achava possível daqui a umas dezenas de anos.
Contudo, com a capacidade de adaptação e genialidade que o cérebro humano consegue atingir, como bem o demonstrou a sua própria mente, a nossa Inteligência vai ser desafiada a nunca deixar de controlar essas máquinas tão temíveis em poder e força.
Falou pois, em todos esses perigos, ele que só conseguia falar com a ajuda de computadores!
E teve afinal, uma vida cheia - casou, teve 3 filhos, o que o levou a dizer: «Isto não seria um grande Universo, se não morassem lá, as pessoas que amamos».
Faleceu aos 76 anos. 





quinta-feira, 8 de março de 2018

O TEMPO, UM IMPARÁVEL CORREDOR



         

                                                              Filomena Leal


Preocupada com a aceleração vertiginosa do Tempo, pus-me a reler algumas passagens sobre o tema, no Livro do Desassossego de FERNANDO PESSOA. Sinto o mesmo em inúmeras situações da vida. Mas a expressão dele é sempre genial. Por isso, transcrevo:
«Tenho fome da extensão do tempo.
Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei 6 dias, a própria sala triste de espera da estação de caminho de ferro onde gastei 2 horas à espera do comboio. 
Sim, mesmo as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafísicamente.
O tempo! O passado! Aí, algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional, levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações.  O que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos que me amaram na minha infância! Quando os evoco, toda a minha alma esfria e sinto-me desterrado, sòzinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.»

                  
                                    





                                                    

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O ROMANCE - UMA FONTE DO CONHECIMENTO HUMANO


                                           

                                                                                                Filomena Leal


Um bom romance pode mobilizar as mínimas articulações do Pensar e Sentir dum leitor, ávido de diferentes mundos e ideias.
Mas é a partir do turbilhão do real, com toda a minúcia, pormenores e ritmo, que tudo se vai revelando numa visão integral e complexa da Vida.
É todo um Saber que tantos escritores famosos e grandes Leitores, celebram e recordam com gratidão nos seus Escritos.
É toda uma Alquimia de ingredientes conhecidos e transfigurados numa outra coisa ... que se liberta da fugacidade do tempo e fica...
É a Arte ( neste caso, da Palavra) que transforma a realidade perecível e como tal sentida, em algo Permanente e (quem sabe?) talvez eterno!!!
É o Romance, sim, e à sua maneira, a mostrar a diversidade de pontos de vista com personagens (algumas inesquecíveis) a viverem os seus dramas, alegrias, contradições, medos, dúvidas e emoções as mais variadas. E é toda a Incoerência Interior de mentes comuns e menos comuns, a revelar-se por monólogos interiores e fluxo da consciência, tão eficazmente utilizados em Romances com posição de destaque no salão da Memória.

Singular é afinal, o Mundo Romanesco que mostra quão espessa e complexa é a estrutura mental e emotiva do Ser Humano!!!        

(Um mundo já valorizado nos nossos dias pela precisão experimental da Ciência - é o que nos diz o cientista Damásio) 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O CONSELHO «INOCENTE» DO CARDEAL DE LISBOA



                                                                  Filomena Leal

Até parece «inocente» mas não é ( pois quem acreditaria numa realidade em que o conselho fosse seguido?)
É simplesmente o discurso duma Igreja ortodoxa que desde que me lembro, sempre colocou o acento tónico do «pecado» na vida sexual (de solteiros e casados).
Ao recomendar aos recasados « uma vida em continência», apagando a luz introduzida pela janela aberta do Papa Francisco, foi todo um vendaval dos tempos antigos que acabou por entrar na Comunidade Católica - e até dividi-la.
Foram muitas autoridades da própria Igreja a insurgir-se contra uma vida de «casados como irmãos» num casamento que sucede a outro não declarado nulo.
Desde Frei Bento Domingues que considera essa declaração um «delírio» até por ex. o Padre Lino Maia, a considerar que devem ser os 2 cônjugues a « decidir sobre a sua vida íntima» e ainda o bispo de Viseu que declara « o casamento é um sacramento e as relações sexuais são um bem», é todo um estado de perplexidade a dominar uma população na sua maioria católica e que quer continuar a sê-lo.
« Atentado contra a natureza humana» diz o Padre Anselmo Borges, teólogo e Prof. de Filosofia. Por que reconhecer então o recasamento? Podem recasar-se, mas não podem ter relações sexuais - é de crer? Recusar sacramentos àqueles que vivem como casal que são? Será esta a mensagem de Cristo nos Evangelhos tão citados nas missas?
Não seria mais justo e mais de acordo com autênticos valores morais e cristãos, recomendar a luta contra padres pedófilos, tão nocivos à Comunidade e à própria Igreja?

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

PENSAMENTO MAIS VELOZ DO QUE A LINGUAGEM?

                                                                                                         Filomena Leal

Sempre senti o pensamento mais rápido do que a sua articulação verbal.

Evoco para isso as «chamadas ao quadro» dos meus tempos de estudante colegial.

Quando a Engenheira das tranças negras (a excelente Professora de Matemática) me chamava ao quadro, para resolver alguns daqueles exercícios complicados de figuras geométricas, fazia tudo num ápice, sem falar e sem explicar as operações que se sucediam e o raciocínio que as acompanhava.

A Professora, encantada com a desenvoltura e rapidez do meu desempenho, eis que descobre de repente, existir um silêncio quase sepulcral na aula. É que eu não falava, apenas fazia sucessivas operações e apresentava com ar triunfante o resultado final (sempre correcto). Chama-me, desde logo, a atenção:

«Olha, Filó, estou deliciada com a rapidez com que resolves todos esses problemas, mas tens de explicar às tuas colegas o porquê de tudo o que vais fazendo».

No exercício seguinte, tento, mas a voz e o esforço de procurar as palavras, perturbam o fluir do pensamento. Baralho-me e é tudo muito mais lento. A articulação verbal não deixa a corrente seguir o seu curso rápido e normal. Cria pausas e até derivações.

Quem disse que sem linguagem não há pensamento?

É verdade que este precisa da linguagem para se estruturar.

Mas penso que é isso e não mais... Contudo, não tenho certezas...

E daí talvez dependa da própria experiência pessoal!!!

      (HÁ QUEM SEJA MAIS FLUIDO NO FALAR)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

OS BONS JORNAIS FACE AO LABIRINTO INFORMATIVO DAS REDES SOCIAIS



                                                                                                     Filomena Leal  


Desde há muito que devo a alguns jornais o alimento diário indispensável a uma mente que se quer actualizada e diversamente informada. Foram eles que contribuiram para, em confronto com opiniões diferentes e livres, formar a minha própria visão sobre todas as questões tratadas e consideradas essenciais, na procura lúcida dum sentido de vida.
Neste mundo da era pós- verdade então, eles funcionam como o sítio onde o leitor encontra uma informação relevante, com opiniões diferentes e relativamente credíveis. Tudo isto nada tem a ver com o turbilhão dispersivo e a amálgama do verdadeiro e falso que nos dá a atractiva e deslumbrante Internet.
Assim é que o Fundador dum dos jornais que encetou vida em 1973 - o Expresso - lhe chama e com alguma razão um «porto de abrigo», face à «floresta cada vez mais densa e labiríntica das redes sociais». E é um jornal que continua vivo há mais de 40 anos. Lembro-me bem do entusiasmo e esperança que o seu aparecimento ainda em pleno fascismo provocou. A sala dos professores no Liceu D. Dinis, onde eu tinha começado a dar aulas, era nos intervalos, um centro de alvoroço e discussão àcerca das últimas notícias do Expresso. Apesar de ainda existir Censura, era óbvio que já todo ele estava imbuído duma visão Democrática.
E, como diz Pacheco Pereira, num outro jornal de referência - o Público - «é importante ter a informação digitalizada disponível», mas «é igualmente importante ter a dimensão física, real e não virtual daquilo que representa a actividade política, cultural e social». Ainda continuando a citá-lo, ao ouvir o dito comum «Está tudo na Internet», ele afirma e com razão «Não, não está tudo na Internet» e para além disso «Não é a mesma coisa». 
E os efeitos perversos da redução do  conhecimento ao fácil acesso a motores de busca e à famosa Wikipédia, são já notórios e mesmo preocupantes.
É por isso que os jornais de qualidade e em papel, embora também presentes no mundo digital, 
(não posso esquecer o histórico Jornal do Fundão, um dos grandes pilares socio-culturais da Região e por que não? o Garganta de Loriga, que tanto tem defendido os interesses da terra) 
terão sempre futuro para leitores exigentes e que gostam de ler, reflectir, e aprofundar mais os assuntos através de visões diversas.
Que só o jornalismo com regras deontológicas precisas e regulamentadas, e um leque de bons e independentes profissionais, lhes poderá oferecer, desestimulando uma certa tendência para pensamentos únicos.
Em suma, quanto melhor informados estivermos, mais respostas podemos ter para enfrentar o grande e complexo imbróglio da vida actual.  

domingo, 14 de janeiro de 2018

O PEDALAR FRENÉTICO DO MEU VELHO TIO




                                                                                               Filomena Leal


Foi tarde que o reencontrei. Bateu-me um dia à porta com 90 anos. Viera do Barreiro ( onde vivia) nos transportes públicos. A memória dele não o enganara. A rua e número estavam certos.
Conversou muito sobre histórias de família e do seu passado em Loriga. E continuou a vir sempre - durante anos - eu era toda ouvidos.
A última vez falou-me da sua viagem de bicicleta de véspera. E foi extraordinário o que me foi contando desse trajecto.
Lembrava-se daquela namorada que tivera, com cabelo preto e tez dum branco luminoso. À porta de casa, um beijo ardente que ela aceitou. Era Inverno, havia orvalhada e a sua pele era duma humidade que acalmava - dizia ele.
Mais tarde dançou com ela e enquanto dançavam, parecia que o prazer da colagem das faces se introduzia nos seus músculos de velho e fazia andar Veloz a sua bicicleta.
Como ele vivia este sentir, ao contar o que ia pensando nesse
frenético pedalar!.
Beijos e apalpões, respiração ofegante - de tudo isso ele falou, concluindo que foi tudo pouco e até terminara. Um namorico adolescente que lhe ficou gravado e o fizera sofrer.
Não se cansou de me dizer que fora o passeio de bicicleta mais entusiasmante que ele dera. É que se sentira a viver toda aquela realidade do passado...
Mais tarde telefonou-me já adoentado, o médico tinha-o proibido de andar de bicicleta.
Nunca mais o meu saudoso tio me tocou à porta.
Desapareceu, mas « ouço-o muitas vezes a contar-me as suas aventuras».



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

LEMBRAR UM PASSADO SENTIDO COMO PRESENTE



                                                                        Filomena Leal


A Memória é um casarão inesgotável de vivências. E elas disputam entre si a entrada no palco do presente.
Umas mais recentes, outras mais antigas, mas todas elas espreitam o momento oportuno de serem lembradas e «vividas».
Ao ler as Crónicas de António Lobo Antunes, é todo um mundo de lembranças sentidas no presente como «eternamente» reais.
O tempo passou mas fez inúmeras paragens em múltiplos lugares, pessoas e acontecimentos. E é o presente e também o futuro (um contínuo presente) que dará nova vida a tudo o que a Memória (por vezes com pequenos laivos de ficção) registou.
Assim, e lendo as lembranças felizes umas, dolorosas outras, de Lobo Antunes, penso que ele deve realmente ouvir a voz das tias a chamarem-no, o tinir dos rebanhos a passarem, o silêncio de muito dizer nos encontros com José Cardoso Pires. E, de certo, aquele sentir doloroso do último abraço do irmão João que ele considera único no mundo e vai acontecer inúmeras vezes.

De acordo com tudo isto, as pessoas queridas e preciosas que, no decorrer de 2016 (e ao longo dos tempos) desapareceram, com grande pesar nosso, ao serem lembradas, continuam a ser vistas, ouvidas e apreciadas, como se duma «simples» ausência se tratasse.