segunda-feira, 30 de setembro de 2019
«COMO PENSAR MAIS SOBRE SEXO» - UM LIVRO DE ALAIN DE BOTTON
Filomena Leal
Apesar de toda a liberdade sexual existente nos nossos dias, o sexo é algo que continua a levantar bastantes questões.
O livro centra-se muito na apetência erótica dos indivíduos em geral, e que não se compadece muitas vezes com uma situação de amor estabilizado e preocupado com a gestão das rotinas necessárias e demasiado absorventes do quotidiano.
Debruça-se então, sobre fugas eróticas em determinadas situações (viagens de trabalho, por exemplo) e o consequente sentimento de culpa, face a um amor sólido e harmónico vivido conjugalmente. E daí ele defender que está na hora de as pessoas se despirem do verniz moralista e da mentira, assumindo que sexo apenas e amor, podem sentir-se de forma independente, embora continue a existir Desejo naquele amor que, afinal fica em risco, sem haver uma razão de fundo para tal.
E as fantasias sexuais inerentes à natureza humana, o autor as justifica porque são realistas, existem, embora sujeitas ainda a um moralismo hipócrita e castrador.
Segundo ele, muitas das suas ideias e repensar, foi bebê-las, não só a obras freudianas, mas também à ficção clássica como Madame Bovary de Flaubert, Cenas de um Casamento de Ingmar Bergman, etc.
Acaba, no entanto, por exaltar a grande maravilha de estar Apaixonado(a), com amor e sexo fundidos em elevado grau.
sábado, 28 de setembro de 2019
O INTERIOR E SUA CAMINHADA DO SILÊNCIO
Filomena Leal
Há uma tirada humorística do «Inimigo Público» que parece ser aquilo que os poderes políticos (e não só) esperam acontecer: «Metade do país em risco de desertificação vai tornar-se litoral populoso quando as alterações climáticas aumentarem o nível do mar».
Mas depois de ouvir alguns discursos de forças com alguma influência em Lisboa, a acharem mal empregue os poucos recursos de programas específicos para regiões de baixa densidade, não espanta que as portagens nas auto-estradas do Interior sejam as mais caras, que os futuros médicos da UBI tenham de sair para prova de acesso à especialidade e retirem serviços básicos tão necessários e mesmo indispensáveis às populações residentes, de que a luta dos habitantes de Almeida contra o encerramento do balcão da Caixa mostrou o chocante e indiferente desdém do poder político.
Face a uma vila desertificada e umas centenas de moradores com autarca em desespero, pelo efeito socio-económico que tal medida viria a ter no seu concelho, já tão empobrecido, as vozes de indignação nenhum eco tiveram.
Tudo isto tem a ver com frases fatalistas àcerca desta fracção maioritária do país como a que se leu no Público ainda recentemente: «...assumir também que em porções importantes do nosso país, coesão territorial significa gerir o declínio e portanto significa assumir que há partes do nosso território onde não vai ser possível recuperar população e actividade económica»(Ana Abrunhosa).
E é assim que a caminhada silenciosa do interior continua. E este silêncio começa a ensurdecer. O clamor das vozes vai-se calando, esgotado e sem forças, frente ao Grande Poder Central, indiferente ao desiquilíbrio e escandalosas desigualdades do País. Uma das vozes que desde sempre se tem batido pela melhoria das condições de vida das populações destas «tão remotas paragens» - o Jornal do Fundão - é quem ainda continua a resistir e a não deixar fugir de todo a esperança. O seu mais recente programa Interioridades mostra bem todo o valor desperdiçado das «aldeias», fieis depositárias da nossa memória colectiva e a precisarem com urgência dum futuro que querem negar-lhe.
Só alguém com coragem e desprendimento do poder (os votos, senhores, os votos! como viver sem apoiar o grande e populoso eleitorado do litoral?) talvez ainda conseguisse «equilibrar o barco». Contudo, o tempo passa e o «atraso» vai sendo sempre cada vez mais irreversível...
Como é triste viver num país tão desiquilibrado porque mal gerido!
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