quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

UM NATAL COM FORTE «SABOR AMARGO» DOS FOGOS


                                               Filomena Leal

Eis o Poema dum Poeta Beirão que nos fala dessa realidade tão amarga e terrífica, quase impossível de descrever…
Parece ser apenas a Poesia a ela poder aludir com laivos terapêuticos duma Arte Interventiva.

               NATAL SEM PRESÉPIO
Em campos calcinados   feitos cinza
Em casas  por ardidas só ruinas
Por entre gritos  lancinantes  duros
A sangrarem e a atormentarem tudo
Com silêncios de mortos  corroídos
Acompanhando esses sinistros gritos –

Onde acolher-Te em tal destruição
Onde louvar-Te em tal desolação
P’ra que outra vez tu possas renascer
Na manjedoura que também ardeu?

                                        António Salvado


                                              



               

                                        

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

EUGÉNIO DE ANDRADE- O POETA SOLAR


                                                                      Filomena Leal


O evento da Série Ler no Chiado, tinha que ter a presença e organização de Anabela Mota Ribeiro que eu conheci através do Curso de Cultura Geral na RTP2. Nele entrevistou pessoas do maior interesse intelectual, social e artístico.
É sempre estimulante o que ela concebe ou anima.
Desta vez, apresentar e ouvir a Poesia de Eugénio de Andrade, na companhia de outros 2 grandes Poetas (Gastão Cruz e José Tolentino Mendonça), continua nessa linha.
Eugénio de Andrade, nascido na Póvoa da Atalaia (a terra do meu Pai) aldeia impregnada actualmente de toda a sua Obra Poética, é o Poeta Solar, da Claridade, da Palavra como Cristal.
 Lembro-me particularmente, numa célebre Jornada de Poesia, promovida desta vez pelo Jornal do Fundão, do POEMA À MÃE, dito pelo próprio.
A Voz do Poeta impunha um silêncio mágico, dum Sentir Absoluto que só a Música por vezes consegue.
E, ao evocar tudo isso, a emoção é a desse dia, porque sinto mais uma vez a Beleza Plena de tais momentos.
E por mais que se valorizem as horas fulgurantes vividas no presente – aqui e agora – os fragmentos únicos e inesquecíveis, retirados do salão da Memória, vivem-se de novo e voltam a acontecer. É só lembrar…


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A PROPÓSITO DUMA ENTREVISTA A ANTÓNIO DAMÁSIO (Um dos nossos Cientistas de nomeada)

              
                                                             Filomena Leal          

Fala-se em Inteligência Artificial e Inteligência Humana no seu real. Damásio refere-se à Primeira como extraordinária, na medida em que utiliza estratégias de memória e raciocínio muito superiores às Humanas.
Mas falta-lhe algo que temos na nossa Inteligência, absolutamente necessário e realista, pois tem a ver com o que a Vida É. 
Será então a Grande Arte e Literatura que nos dá Isso, ou seja, tudo aquilo que reside na nossa Experiência Mental, ao vivermos uma Vida Real. 
E sabemos que a Mente é feita de subjectividades que, afinal, constituem o Campo da Arte. E por isso, tudo o que aqui se passa, é uma espécie de Prefácio para o estudo Científico dos Seres Humanos. 
É extremamente interessante quando, respondendo à pergunta «qual o maior Cientista de sempre», António Damásio declara que na sua Área é Shakespeare.

Já o Autor do Genoma teria dito há anos que «o conhecimento científico e psicológico da Natureza Humana fica bastante aquém da Literatura no que toca a explicar essa mesma Natureza. E que Shakespeare e Jane Austen (clássicos Universais) continuam a ser melhores psicólogos do que qualquer psicólogo diplomado (sem desprimor para este)»

Na verdade, uma Virgínia Woolf, um Dostoievski, um Lobo Antunes, surpreendem-nos com o que revelam acerca do Sentir. E são os Sentimentos – tudo leva a crer que sim – que têm o poder de Decidir sobre o Comportamento Humano. A Razão será então utilizada com toda a sua «performance» quando a tem, para pôr em prática o poder Decisório dum ou vários sentimentos. Pode ser ódio, raiva, amor, egoísmo, interesse por negócios, por arte, todos estes sentimentos serão  Motores de qualquer conduta.


São Questões infindas que se podem pôr neste domínio. Mas é ENTUSIASMANTE ver as conclusões a que vai chegando a CIÊNCIA...  

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

UM APELO INESQUECÍVEL

                                    
                                                                      
                                                   Filomena Leal


Foi na aula de Linguística do dia 26 de Novembro de 1967.
Havia muitos alunos no Anfiteatro, ansiosos como sempre por alargar os horizontes linguísticos com o nosso prestigiado Professor Lindley Cintra. Ele entra e, deveras emocionado, diz: (com outras palavras mas de igual conteúdo)
«Meus Senhores, estamos a viver UMA GRANDE TRAGÉDIA na Região de Lisboa e Vale do Tejo. As chuvas Torrenciais desta Longa e Negra Noite, arrastaram na enxurrada barracas e centenas de Pessoas que nelas viviam. Temos que cuidar dos Sobreviventes e de tudo o que eles precisam. É nosso Dever CÍVICO APOIAR COM URGÊNCIA as Vítimas, e APELO neste momento, para a vossa SOLIDARIEDADE de jovens Generosos e Preocupados com o que se passa no seu País
A maioria levantou-se de imediato para se dirigir onde era preciso, mas o CHOQUE com a Realidade foi brutal. Não faziam ideia das condições Miseráveis em que muita Gente à volta de Lisboa vivia.
Foi o Acordar Político-social de grande parte destes jovens, na Luta contra o regime de Salazar que procurou ocultar tudo o que o pusesse em questão (como se já não estivesse condenado há muito!)
Assim, os jornais que começaram por dar notícia dos terríveis dramas a que assistiam, tiveram de se calar – tudo o que aludisse à catástrofe e morticínio era censurado e cortado, incluindo as Actividades Beneméritas dos Estudantes (por isso ainda hoje se não sabe ao certo se morreram 400, 500 ou 700 Pessoas).
Apenas o Comércio do Funchal, semanário da Oposição, conseguiu levantar em 10 de Dezembro do mesmo ano, o essencial da questão:
«Se as barracas fossem verdadeiras casas, teriam sido arrastadas pelas águas
E o Solidariedade Estudantil, boletim dos Estudantes que se organizaram para apoiar as populações afectadas, pôs em relevo as estatísticas do Serviço Meteorológico que mostravam ter chovido mais no Estoril, zona rica de Cascais, onde não houve mortos, nem danos materiais de monta.
Todo o fatalismo defendido pela ditadura, caía assim por terra.
A IMPRENSA ACTUAL (que seria da nossa Memória sem os jornais?) LEMBRA AGORA ALGUNS DETALHES REGISTADOS DO FUNESTO ACONTECIMENTO, CONSIDERADO TALVEZ O MAIOR DESASTRE OCORRIDO EM PORTUGAL, APÓS O TERRAMOTO DE 1755.
EU, LEMBRO O APELO DE MESTRE DO SAUDOSO PROFESSOR LINDLEY CINTRA, E TODO O COMPORTAMENTO CÍVICO QUE DESENCADEOU.
Foi no Novembro de há 50 anos.




sábado, 11 de novembro de 2017

ÀCERCA DO PRESIDENTE DOS AFECTOS


                                                                        Filomena Leal

Será que Emoções e Afectos nada terão a ver com Razão?

Em situações de tragédia e perda de pessoas e bens, não será Racional a atitude genuína de consolar e abraçar as vítimas, tão carentes duma Afectividade Solidária? E não será o Presidente alguém com Poder, ouvindo Atento e Compassivo palavras desamparadas, a pessoa certa para consolar de tamanha dor e sofrimento?
Não, não vejo aqui qualquer tipo de populismo, e excessiva Emoção, a descurar a Racionalidade necessária para acudir com meios e medidas urgentes às populações.
 Não concordo, pois, com Pacheco Pereira no jornal Público (embora aprecie o que normalmente defende e os seus justos argumentos) quando fala numa «ditadura dos afectos» e no risco desta «abafar a racionalidade».
Foi precisamente o Presidente Marcelo que fez despertar tudo e todos (incluindo o Governo) para uma Acção Urgente.
Afectos e Razão nunca se excluem e era bom que estivessem sempre ligados num equilíbrio sensato e inteligente.
E a verdade é que uma das grandes causas do populismo reside, sem dúvida, numa excessiva racionalidade política, imbuída duma tecnocracia fria, e sem qualquer dimensão Afectiva, tão necessária ao cidadão.
O Presidente actuou, pois, no sentido certo:
UNIR O PAÍS NUM SENTIR SOLIDÁRIO E URGENTE, DE MODO A TRANSMITIR ESPERANÇA E ÂNIMO A TODOS (E FORAM TANTOS!) PARA RECOMEÇAREM E SE REERGUEREM DA DESGRAÇA QUE OS ATINGIRA.
Sinto um orgulho comovido com a actuação verdadeiramente Humana do Presidente da República do meu País.

Lisboa, 10 de Novembro de 2017




sexta-feira, 10 de novembro de 2017

UM ACÓRDÃO DEVERAS ESTRANHO


 Filomena Leal 

Trata-se duma ex-mulher de dois homens – um ex-marido e um amante

Que se sentiam ofendidos na «sua honra e dignidade» por «adultério» daquela mulher. E, premeditadamente, decidiram vingar-se. 
Segundo factos provados em tribunal, bateram-lhe a valer (uma moca com pregos é bom castigo para a «pecadora»). 
E ficou com sorte, porque o castigo prescrito na Bíblia e lembrado no acórdão do Senhor Magistrado, «a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte». (Mas não foi Jesus Cristo que perdoou à mulher «adúltera»? Ah! Mas o Antigo Testamento é mais castigador e cruel, já me esquecia disso…
 Referida foi também como atenuante para com o crime dos arguidos, uma lei de 1886 que punia com pena pouco mais do que simbólica, o homem que MATAVA A MULHER se a achasse «em adultério». 
O juiz utilizava a expressão «ainda não foi há muito tempo» ao invocar esta lei do Código penal. Em relação à Bíblia, não há dúvida que tem uns milhares de anos a menos!!! 
Mas… perplexidade a minha: E a Constituição que entrou em vigor em 1976? Porque não é citada? Será porque proíbe a discriminação com base na diferença sexual ou de género? 
Este já não é realmente o tempo em que o tal «adultério» da mulher se considerava «deslealdade e imoralidade sexual», mas sim ao nível do do homem que outrora era tão natural e até motivo de orgulho machista. 
Que pena terem mudado os tempos e as Leis que regem a Justiça, face à VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES E VIOLÊNCIA DOMÉSTICA em geral!!! 
E que saudades da mulher «pecadora» que podia ser objecto dos mais cruéis castigos, e da outra, cada vez mais rara, a «honesta» que «estigmatiza a adúltera»!!! 

                          9 de Novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

E O FOGO VORAZ E «FATAL» LANÇOU MANTO NEGRO NO INTERIOR DO PAÍS

      E O FOGO VORAZ E «FATAL», LANÇOU MANTO NEGRO NO INTERIOR DO PAÍS…
                                                              
                                                                     Filomena Leal                                 
                                                                                                            
Morreram pessoas – muitas.
As que ficaram, algumas lutando ferozmente contra as chamas, sem nada ficaram. Casas, empresas, pequena e média agricultura, tudo jaz morto – em cinzas. A alma do Interior ficou queimada e a do resto do País, no mínimo, chamuscada.
É claro que muita gente das cidades (Lisboa e Porto em particular) não sentiram o problema, como se em nada os afectasse. Estão habituados a ver terríveis dramas na televisão e logo esquecem – já é banal. Mas a verdade é que todo o País empobreceu e aqueles que pensarem um pouco, poderão chegar à verdadeira Razão de tudo isto. Para além das muitas enunciadas por especialistas e não só, e todas válidas, há uma que reside na base de todas elas: o despovoamento desse Interior, iniciado com a morte da agricultura e se foi continuando sempre com encerramento de escolas, estações do correio, centros de saúde, e tudo o que é básico para a vida das populações.
O desprezo pelas aldeias e sua desvalorização por todos os poderes existiu e cada vez de modo mais acelerado, até chegarmos à quase extinção de muitas delas.
É de pensar, pois, urgentemente, nas medidas que possam suster a desertificação deste Interior, criando estímulos para empregar e fixar as novas gerações fora das grandes cidades e orla costeira do País.
Um Governo verdadeiramente empenhado na Defesa desta Causa Nacional, poderia transformar um País pequeno como o nosso, num modelo de coesão e equilíbrio, sem as desigualdades territoriais duma actualidade profundamente Injusta para uns e prejudicial para todos.
                                                  

                                      

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CASA DA INQUIETUDE


                                                                            Filomena Leal

É uma casa aberta a espíritos revoltos e preocupados com tudo o que vai acontecendo no mundo em geral e neste cantinho à  «beira-mar habitado» em particular.

Sim, neste cantinho com um Interior Deserto, obra fatalista de políticos muito modernos, mas sem uma Visão Desafiadora dum País territorialmente Equilibrado, Desenvolvido e Habitado.

Grande parte da Paisagem que se percorre, carece claramente de Mãos Humanas que a Vitalizem.
Todos sabemos o porquê desta grande Lacuna. Política, pois. Estudos feitos ou encomendados «ad hoc» concluíam sempre que tinha de ser assim. Foi-me sempre difícil acreditar nisso, pela sua falta de razão.

Regiões onde pululam multidões que por vezes se atropelam e outras a serem paulatinamente desertificadas, pela falta do que de mais básico fixa e dá vida às populações: medidas fomentadoras de emprego, Centros de Saúde e Escolas.
Qual a razão?

Custa-me a crer que seja pelo próprio facto de não haver muita gente e tais regiões terem menos votos a dar quando comparadas com os grandes Centros Urbanos do Litoral e Outros. Ou terá sido a indiferença ou mesmo o desprezo pela ruralidade? A cultura da Cidade a impôr-se a todo o «atraso aldeão» e o Provincianismo Urbano a brilhar como «Farol»!!!

O resultado está à vista e mais visível do que nunca. E O GRANDE DESAFIO- e este é mesmo HISTÓRICO - PARA OS ACTUAIS GOVERNANTES, SERÁ O DE PENSAR O PAÍS COMO UM TODO, DISCRIMINANDO POSITIVAMENTE AS REGIÕES QUE TÃO PERSISTENTEMENTE TÊM SIDO OSTRACIZADAS…