segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

OS BONS JORNAIS FACE AO LABIRINTO INFORMATIVO DAS REDES SOCIAIS



                                                                                                     Filomena Leal  


Desde há muito que devo a alguns jornais o alimento diário indispensável a uma mente que se quer actualizada e diversamente informada. Foram eles que contribuiram para, em confronto com opiniões diferentes e livres, formar a minha própria visão sobre todas as questões tratadas e consideradas essenciais, na procura lúcida dum sentido de vida.
Neste mundo da era pós- verdade então, eles funcionam como o sítio onde o leitor encontra uma informação relevante, com opiniões diferentes e relativamente credíveis. Tudo isto nada tem a ver com o turbilhão dispersivo e a amálgama do verdadeiro e falso que nos dá a atractiva e deslumbrante Internet.
Assim é que o Fundador dum dos jornais que encetou vida em 1973 - o Expresso - lhe chama e com alguma razão um «porto de abrigo», face à «floresta cada vez mais densa e labiríntica das redes sociais». E é um jornal que continua vivo há mais de 40 anos. Lembro-me bem do entusiasmo e esperança que o seu aparecimento ainda em pleno fascismo provocou. A sala dos professores no Liceu D. Dinis, onde eu tinha começado a dar aulas, era nos intervalos, um centro de alvoroço e discussão àcerca das últimas notícias do Expresso. Apesar de ainda existir Censura, era óbvio que já todo ele estava imbuído duma visão Democrática.
E, como diz Pacheco Pereira, num outro jornal de referência - o Público - «é importante ter a informação digitalizada disponível», mas «é igualmente importante ter a dimensão física, real e não virtual daquilo que representa a actividade política, cultural e social». Ainda continuando a citá-lo, ao ouvir o dito comum «Está tudo na Internet», ele afirma e com razão «Não, não está tudo na Internet» e para além disso «Não é a mesma coisa». 
E os efeitos perversos da redução do  conhecimento ao fácil acesso a motores de busca e à famosa Wikipédia, são já notórios e mesmo preocupantes.
É por isso que os jornais de qualidade e em papel, embora também presentes no mundo digital, 
(não posso esquecer o histórico Jornal do Fundão, um dos grandes pilares socio-culturais da Região e por que não? o Garganta de Loriga, que tanto tem defendido os interesses da terra) 
terão sempre futuro para leitores exigentes e que gostam de ler, reflectir, e aprofundar mais os assuntos através de visões diversas.
Que só o jornalismo com regras deontológicas precisas e regulamentadas, e um leque de bons e independentes profissionais, lhes poderá oferecer, desestimulando uma certa tendência para pensamentos únicos.
Em suma, quanto melhor informados estivermos, mais respostas podemos ter para enfrentar o grande e complexo imbróglio da vida actual.  

domingo, 14 de janeiro de 2018

O PEDALAR FRENÉTICO DO MEU VELHO TIO




                                                                                               Filomena Leal


Foi tarde que o reencontrei. Bateu-me um dia à porta com 90 anos. Viera do Barreiro ( onde vivia) nos transportes públicos. A memória dele não o enganara. A rua e número estavam certos.
Conversou muito sobre histórias de família e do seu passado em Loriga. E continuou a vir sempre - durante anos - eu era toda ouvidos.
A última vez falou-me da sua viagem de bicicleta de véspera. E foi extraordinário o que me foi contando desse trajecto.
Lembrava-se daquela namorada que tivera, com cabelo preto e tez dum branco luminoso. À porta de casa, um beijo ardente que ela aceitou. Era Inverno, havia orvalhada e a sua pele era duma humidade que acalmava - dizia ele.
Mais tarde dançou com ela e enquanto dançavam, parecia que o prazer da colagem das faces se introduzia nos seus músculos de velho e fazia andar Veloz a sua bicicleta.
Como ele vivia este sentir, ao contar o que ia pensando nesse
frenético pedalar!.
Beijos e apalpões, respiração ofegante - de tudo isso ele falou, concluindo que foi tudo pouco e até terminara. Um namorico adolescente que lhe ficou gravado e o fizera sofrer.
Não se cansou de me dizer que fora o passeio de bicicleta mais entusiasmante que ele dera. É que se sentira a viver toda aquela realidade do passado...
Mais tarde telefonou-me já adoentado, o médico tinha-o proibido de andar de bicicleta.
Nunca mais o meu saudoso tio me tocou à porta.
Desapareceu, mas « ouço-o muitas vezes a contar-me as suas aventuras».



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

LEMBRAR UM PASSADO SENTIDO COMO PRESENTE



                                                                        Filomena Leal


A Memória é um casarão inesgotável de vivências. E elas disputam entre si a entrada no palco do presente.
Umas mais recentes, outras mais antigas, mas todas elas espreitam o momento oportuno de serem lembradas e «vividas».
Ao ler as Crónicas de António Lobo Antunes, é todo um mundo de lembranças sentidas no presente como «eternamente» reais.
O tempo passou mas fez inúmeras paragens em múltiplos lugares, pessoas e acontecimentos. E é o presente e também o futuro (um contínuo presente) que dará nova vida a tudo o que a Memória (por vezes com pequenos laivos de ficção) registou.
Assim, e lendo as lembranças felizes umas, dolorosas outras, de Lobo Antunes, penso que ele deve realmente ouvir a voz das tias a chamarem-no, o tinir dos rebanhos a passarem, o silêncio de muito dizer nos encontros com José Cardoso Pires. E, de certo, aquele sentir doloroso do último abraço do irmão João que ele considera único no mundo e vai acontecer inúmeras vezes.

De acordo com tudo isto, as pessoas queridas e preciosas que, no decorrer de 2016 (e ao longo dos tempos) desapareceram, com grande pesar nosso, ao serem lembradas, continuam a ser vistas, ouvidas e apreciadas, como se duma «simples» ausência se tratasse.