terça-feira, 14 de junho de 2022

A CASA - O LUGAR D' ABRIGO E DOS «TESOUROS» DE CADA UM

                                          

                                                                                                          Filomena Leal


ÍTACA de luz e sol é minha casa./ (...)/E não sei de outro lugar tão suave sobre a Terra.                                             (Homero, Odisseia, Canto IX)


É algo de comum e um direito proclamado: ter uma Casa (mas não tão comum: olhemos os Sem Abrigo e todos os que têm mandato de despejo, por não a poderem pagar!)                              Por todas essas razões a Casa é dum valor quase «absoluto» (tenho presente aquele verso do poema de Herberto Helder:         «-Era uma casa- como direi? - absoluta».                                         É ela a testemunha de muitos sonhos, sucessos, frustrações, conflitos e até de cenas violentas. Mas também de bem-estar, repouso, refúgio íntimo e dum regresso quase sempre desejado.   Quase sempre? Tudo depende daquilo que a Casa representa na vida, nos desejos e valores de cada um.                                             Mas ninguém pode negar que a Casa é o nosso melhor abrigo em tempo de pandemia, de catástrofe, e da sua valorização face à iminência de ser destruída por uma guerra, como temos visto através do desespero dos refugiados ao serem obrigados a deixar a sua Casa.                                                                                           É ela a trincheira da humanidade. Sem ela e objectos que nos cuidam e ela contém, ficamos à mercê das intempéries pequenas ou maiores dum mundo potencialmente agressor.                            É verdade que se formos obrigados a nela permanecer, por mais que impere uma certa comodidade e bem estar, nos pode invadir um desejo incontido de sair, caminhar nos grandes espaços, olhar o mar, jardins, e tudo aquilo que já não vemos há muito e nos agrada.                                                                                                  Mas terá sido também ocasião de sentir ou intuir todas as potencialidades duma Casa feita à nossa medida e com «alma». Sendo a nossa extensão, diz muito do que somos e queremos ser. O valor afectivo de alguns objectos, fotos de família, livros dos nossos autores preferidos, e não só, uma ou outra peça d'arte, músicas eleitas, tudo isso nos é caro e é parte integrante da Casa.    Hoje parti UMA CANECA minha preferida. Uma parte da Casa, tal como eu, chorou a perda - foi-se embora aquilo que recordava, ao olhá-la. E tantos objectos sem valor nenhum para outros que de mim falam, e tão « absolutos» são! Como a Casa onde estão!!!