domingo, 2 de julho de 2023

AINDA ÀCERCA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

                      AINDA ÀCERCA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

                                                                                                                      Filomena Leal


Uma grande e preocupante questão se levanta face à  «substituição da inteligência humana pela tão exaltada inteligência artificial».
O Lançamento do ChatGPT e o processo crescente da artificialização do Humano e da sua Inteligência em particular, pode fazer-nos crer que os robots são humanos ou até mais do que isso. Sendo assim, já não seríamos precisos para nada. O nosso destino seria então o desaparecimento.  Com uma vida ociosa, sem qualquer função nem sentido, será a máquina digital construída pelo homem que pode destruir a civilização e cultura por ele desenvolvida ao longo dos séculos.
E a pergunta que grassa por aí, em particular pelos mais duvidosos e críticos: 
O FUTURO PRECISARÁ DE NÓS?
Autónoma e sem controlo, actuando em função d'objectivos, poderá criar as suas finalidades próprias, opostas às que os seus criadores humanos lhe colocaram.
Para além disso, a sua lógica é binária ou seja, um estado só pode ser verdadeiro ou falso, gerando assim erros e falsidades. A Inteligência Humana, como sabemos, permite múltiplas variações para o mesmo problema, sendo, no essencial, de tentativa, emocional e consciente.
É verdade que a IA tem uma grande capacidade de analisar e combinar uma imensidão de dados num tempo mínimo. Daí a grande publicidade do chamado ChatGPT e outras aplicações do género que, rapidamente, escreve textos de grande qualidade, constrói imagens perfeitas e imaginárias, combinando tudo de forma imprevisível e criativa. As consequências são óbvias, em especial na área da Cultura.
A sua habilidade em gerar originalidade, vai levar à extinção de milhões de empregos e profissões. Mais rápida, produtiva e mais barata do que os criadores Humanos, será contudo, a criação desta nova realidade virtual, enganadora e falseada que irá destruir os valores e princípios da nossa civilização Humana, se aqueles que a desenvolvem e a tornam autónoma, não tomarem medidas que a controlem.
Não nos pode deixar indiferente o que diz o grande linguista e investigador Noam Chomsky numa entrevista ao jornal Público de 28 de Abril de 2023:
«ESTE É O ATAQUE MAIS RADICAL AO PENSAMENTO CRÍTICO, À INTELIGÊNCIA CRÍTICA E PARTICULARMENTE À CIÊNCIA QUE EU ALGUMA VEZ VI»
                                          

quarta-feira, 31 de maio de 2023

A TRAGICOMÉDIA DA CONDIÇÃO HUMANA

                                                                                                         

                                                                                                         Filomena Leal


Inteligência artificial a substituir os humanos? ou humanos a saber tirar partido das ferramentas da IA por eles criadas?      Trata-se da Tragicomédia da Condição Humana.                               Por um lado, o desejo de criar algo que vá além dos seus limites humanos actuais. Por outro, poder dominar consciente ou inconscientemente um sistema que irá simular realidades credíveis, mas que poderão ser falsas e potencialmente perigosas. Realidades essas ilusórias, alucinadas, impossíveis de ser testadas na sua precisão ou na fonte original dos dados trabalhados. O utilizador médio não vai detectar facilmente a potencial falsidade e imprecisão daquilo que a IA irá produzir, na base de dados humanos incomensuráveis, dada a rapidez e eficácia do seu sistema. Já não é o útil automatismo a facilitar muitas tarefas humanas, mas a possibilidade de invadir territórios passíveis apenas da inteligência criativa e até ética do cérebro humano.

E responsabilidade de autor, onde está? O sistema fica naturalmente impune, embora possa ser manipulado por humanos com poder e saber para isso. Mas agora com o perigo real e inconscientemente virtual de levar a civilização humana à sua completa falência.

E a grande tragédia já por demais anunciada, duma Desumanização levada ao extremo, virá de rompante reduzir-nos ao Nada das coisas sem alma e sem uma qualquer autonomia vital.                                                                                                                                                                                                


quinta-feira, 30 de março de 2023

UMA EMIGRAÇÃO DE DESESPERO E BRUTAL NO FILME DE MARCO MARTINS

 

                                                                                                                 Filomena Leal


Inspirado numa realidade social de emigrantes portugueses deste século (quem diria!!!)na cidade inglesa Great Yarmouth, Marco Martins dá-nos uma visão dura e extremamente desumana do quotidiano destes trabalhadores.                                                         Beatriz Batarda é a actriz principal que actua como vítima e exploradora simultâneamente. E, face a tudo que precisou de fazer e exigir a todos os espoliados, humilhando-os e avilanando-os, desumanizando-se sem dó nem piedade, foi decerto necessário  viver o dia a dia deles, para um autêntico desempenho. E o sistema explorador sem limites, de condições propícias a isso, deixa-nos sem fôlego, porque parecia impensável no nosso tempo.                                                                                    Mas a verdade é que já não existem valores, modelos, é toda uma realidade crua, só ela existente e sem qualquer possibilidade de mudar. Sem esperança. Um desespero mudo, desumanizado e desumanizante.                                                                                      Quão distante está, apesar de tudo, aquele realismo da emigração dos anos 50, em que a Esperança numa vida melhor norteava e dava alento aos nossos emigrantes, sem lhes tirar dignidade e até por vezes um sentir heróico.                                       Hoje, para situações dessas, o sistema é implacável, e as pessoas transformam-se à medida do que ele exige - Humanos irreconhecíveis como tais.




                        

terça-feira, 21 de março de 2023

A SÁBIA E JUSTA VISÃO DE JESUS CRISTO EM RELAÇÃO ÀS MULHERES

 

                                                                                      Filomena Leal              


Sempre vi Jesus Cristo nas várias fases da minha relação com a Igreja, como o grande e inspirado questionador das graves e violentas injustiças do seu tempo. Através da Palavra (inserida muitas vezes em parábolas e histórias com fundo real) e atitudes hoje consagradas em direitos fundamentais da pessoa humana, opôs-se a muitos dos costumes estabelecidos na própria religião e no Império romano em geral. Daí ser mal visto e propagandeado como alguém perigoso para o fundamentalismo religioso judeu e para o próprio poder pagão. (É de lembrar uma passagem imaginária de Dostoievsky na célebre obra de «Os Irmãos Karamazov». Jesus aparece uma vez mais e o responsável da Inquisição manda prendê-lo. Vai falar depois com ele à prisão e diz-lhe: «a tua palavra é incómoda. Nós não a podemos ouvir. Agora ficamos nós no teu lugar»)

No contexto desse seu tempo, a mulher era um ser ínfimo, sujeito a todas as descriminações. É lapidar a frase de Jesus face à incriminação da mulher adúltera (que seria apedrejada, segundo as leis): «Quem não tem pecados que atire a 1ª pedra»(Evangelho de João). Prega assim a igualdade de género que mesmo hoje, ainda não é real. E embora houvesse problemas em a Igreja Católica aceitar este episódio, com o tempo passou a ser considerado canónico. E porquê? Terá sido porque a mulher adúltera foi associada à suposta pecadora Maria Madalena, considerada por estudos não reconhecidos pela Igreja a «Apóstola dos Apóstolos»? Também o desaparecimento do Evangelho de que ela seria autora e foi descoberto no século XIX sem algumas páginas, virá dessa resistência da Igreja? A verdade é que depois disso, ainda ficou perdido até 1955. Também o facto de Pedro ficar despeitado por ter sido Maria Madalena a eleita para anunciar a Ressurreição, porque foi ela a 1ª pessoa a ver o Cristo ressuscitado, ajuda a perceber as reservas da Igreja institucionalizada relativamente a Maria Madalena e às mulheres em geral.

No entanto, é nos Escritos Apócrifos publicados recentemente por Frederico Lourenço e por ele traduzidos, que está contido muito daquilo que Jesus defendia e praticava e é o Cerne do Cristianismo. E vemos aí Jesus nas várias situações - à mesa, em casa,, no templo - a romper com ideias feitas, aparências, exclusão de subalternos, entre estes a mulher. E esta, com o direito de se dedicar a tarefas consideradas apenas de homem como o domínio da Palavra, em detrimento dos habituais trabalhos domésticos (uma cena em casa de Maria e Marta ilustra bem o que pensa neste domínio).

Também os primeiros cristãos têm a noção clara de que as mulheres ocupavam e a isso tinham direito, um lugar igual ao do homem (a Mãe, a discípula/Apóstola Maria Madalena, as irmãs Maria e Marta e as poderosas Joana e Susana - todas influentes no Movimento que terá surgido, a par doutros mais tarde e liderados por mulheres). Nestes encontros terá havido acesos debates sobre o lugar da mulher na Igreja. 

Porquê serem ainda hoje excluídas da ordenação e de outros cargos hierárquicos da Instituição?

Leio Frei Bento Domingues, o Cardeal Poeta Tolentino Mendonça e mais recentemente o genial tradutor do Antigo e Novo Testamento e dos Evangelhos Apócrifos - Frederico Lourenço - e todos eles falam na relação justa e sem descriminações de Jesus com as mulheres. E a verdade é que foram elas que sempre o acompanharam, entenderam e lhe foram fieis como testemunhas da sua Palavra e práticas de vida.

Mas eis que surge um Papa, o Sumo Pontífice da Igreja, que quer posicionar a mulher nos lugares a que tem direito como ser baptizado e cristão, tal como o homem. Procura seguir Cristo também na apreciação que faz desses seres, com uma inteligência muito própria e mesmo geniais em algumas tarefas. E não teoriza apenas: tem nomeado mulheres para cargos de grande visibilidade e liderança dentro da Igreja. Nos 6 cargos de leigos, nomeou 5 mulheres e 1 homem  que, segundo ele, «começaram a funcionar melhor talvez devido à capacidade específica da mulher em administrar determinado tipo de coisas» Também a vice-governadora do Vaticano é uma mulher.

Dar a Palavra à mulher em cargos decisórios da Igreja, é pois, algo que se impõe. Renovar e daí seguir o Mestre no seu estilo e comportamento, é afinal o défice desta Igreja, cujos Valores, apesar de tudo, nesta actualidade materialista com ideias hiper consumistas, mas carente de Paz e Justiça, são essenciais.     

domingo, 5 de fevereiro de 2023

AINDA SOBRE OS CUIDADORES INFORMAIS

                                                                                                                                Filomena Leal


Trata-se dum batalhão silencioso que trabalha na sombra.            É uma tarefa que podemos considerar como descomunal.              Foi a pandemia, apesar de tudo, que deu o sinal de alerta para a valiosa existência destes milhares de pessoas desprotegidas que se dedicam a cuidar de muitas vidas em situação vulnerável.              Trata-se dum drama nacional, pois nas condições em que trabalham, sem as ajudas substanciais de que carecem, serão fatalmente atingidas pelas doenças de que cuidam, num esforço quase sobre-humano.                                                                          É ao Estado que compete imiscuir-se num tal problema social. Já vai dando umas migalhas, mas nada de relevante para as necessidades.                                                                                        É de tomar exemplos neste campo como o da França, em que o cuidador assalariado recebe 14,21 euros por hora e a pessoa tratada 13,61 (claro, à nossa medida, dado que os nossos recursos são menores). Mas que melhor e mais útil actividade do que esta, merecedora de grandes e mais que justos apoios da parte dum Poder que se diz Humanista?                                                              Sabemos que com o envelhecimento cada vez maior da população, teremos cada vez maior necessidade de cuidadores que por sua vez, serão novas pessoas a cuidar no futuro.                Urge legislar mais humanamente, para proteger uma classe super esforçada e sofredora, e da qual a sociedade em geral, é altamente Devedora.                




                   

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A TERAPIA DA PALAVRA

SERÁ QUE O FUTURO PODERÁ MORAR NO INTERIOR DO PAÍS?

                                                                                                               

                                                                                                                  Filomena Leal


Li recentemente uma notícia no Jornal do Fundão sobre Idanha-a -Nova e a forte estratégia de marketing territorial para aumentar a natalidade. E, pensando bem, não há dúvida que uma das principais causas do despovoamento, tem sido a indiferença do poder político. É uma concepção fatalista que, desde há muitos anos tem vigorado nos detentores de cargos públicos. Fechar Escolas, Centros de Saúde, agências da Caixa Pública, o que é isso senão tirar qualquer esperança e nada fazer para a estimular? Bem tem batido com persistência o Jornal do Fundão nessa tecla, onde os senhores do Poder não clicam. Será por não sentirem o problema? Ou será por o acharem demasiado complexo e lhes exigir demasiado esforço, sem as devidas compensações (de votos, penso eu que...)?                                          Quando será que surgirá entre nós um PODER verdadeiramente democrata que tome em mãos (e na cabeça) o povoamento deste território? Há medidas estruturais que poderão atrair pessoas, casais com filhos ou sem filhos, empresas aqui sediadas que criem empregos a quem tem vontade de se fixar nestas terras pelos mais diversos motivos. E tanta gente que já está saturada da grande cidade e do próprio litoral, onde as pessoas se acotovelam e até «gozam» (imagine-se) de grandes cargas poluidoras!!!                                                                        Precisamos dum País Equilibrado, onde a distribuição de pessoas e bens por todo ele, seja uma realidade. E não ao desaproveitamento da maior parte do território, face à pequena e privilegiada superfície onde está centralizado tudo que fomenta riqueza e serviços, o poder decisório e o tão desiquilibrado super povoamento.