sexta-feira, 31 de maio de 2019
REGULAR REDES SOCIAIS NÃO SÓ É NECESSÁRIO COMO URGENTE
Filomena Leal
Regular - é esta a mensagem de Wylie, o programador canadiano que denunciou o escândalo do uso abusivo de dados dos utilizadores do Facebook.
E vai mais longe:é mesmo Urgente. Compara as redes sociais a «antigos colonizadores» e vistos de início como «mensageiros divinos». Mas eram e são, na verdade, «exploradores que querem acumular recursos na forma de dados pessoais, sem preocupações com a maneira de funcionar das comunidades onde estão a entrar».
E qual é o maior problema da regulação? É que os políticos responsáveis por isso, não têm a noção dos problemas em causa ou, se sabem, não se preocupam e vão adiando... Até porque, regular não é impossível, se fôr levado a sério. Regulam-se fábricas de energia nuclear, por que não conseguir regular plataformas on line? Professores, médicos, jornalistas, advogados, todos eles seguem leis éticas estabelecidas. Por que não, quem trabalha com dados tecnológicos?
Os futuros assistentes digitais em casa parecem não estar longe. Eles chegarão quase sem nos darmos conta. Iremos então ter a casa em que vivemos conectada ao carro, telemóvel, local de trabalho, onde os sistemas informáticos poderão ter o poder de decidir sobre todo o nosso quotidiano. Se não regularmos agora, em que os algoritmos estão em contrôle, será quando tudo já estiver a funcionar de acordo apenas com leis de eficiência e rapidez, sem o necessário contrôle humano? Como lidaremos então com esses «monstros funcionais»?
Já há inúmeros especialistas a revelar este lado negro da tecnologia.
terça-feira, 28 de maio de 2019
A CULTURA COMO «TRANSFORMADORA » DA VIDA
Filomena Leal
Lembro muitas vezes as lições do grande sábio Padre Manuel Antunes ( Prof. de Cultura Clássica), àcerca do conceito de Cultura em cotejo com o de Civilização.
E foi um útil ponto de partida para toda a minha vivência cultural através dos anos.
Assim, para mim Cultura é pensar pela própria cabeça, uma arma para combater o lugar comum, o banal, o preconceito e a indiferença, face à diversidade do real. É um Saber digerido, assimilado, relacionado e recriado. Exige muitas leituras, convívio com pessoas «vivas», olhando tudo e todos com olhar próprio, construído a partir da experiência e reflexão. É não ter preconceitos sobre a importância das coisas e até disponibilidade para pôr em causa o que hoje consideramos certo. Difere da erudição por muitas das dimensões de criatividade e até do fazer.
Assim, um médico competente tecnicamente, pode não ser culto. A frase de Abel Salazar «um médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe» ilustra bem isso.
Um professor que se preocupa só com a matéria a ensinar, sem interagir com os alunos noutras dimensões, não é uma pessoa culta. E a propósito, como professora que fui, vivi sempre esta profissão como fonte de aprendizagem com as sucessivas gerações que ia conhecendo. E como lembro brilhantes alunos
que tive! (em particular no ensino nocturno) com gente a trabalhar e a estudar simultâneamente (estudar era mesmo o 2º trabalho). E sinto-me grata por tudo o que com eles aprendi e o que com eles partilhei! (encontros ocasionais com alguns deles, ao dizerem: «as suas aulas, professora, eram diferentes», dão-me uma certa alegria , pelo reconhecimento).
Sempre procurei relacionar tudo com tudo - literatura, música, pintura, ciência, meios de comunicação, e ainda os grandes e pequenos nadas de que a vida é feita.
É este o meu conceito de Cultura, dispersivo aparentemente, mas integrador do Saber e construtor duma Visão do mundo pessoal. Não posso deixar de referir nesta minha construção cultural a Ética de vida legada pelos Pais e os fogachos de Progresso trazidos pelas Filhas, tudo mui reflectidamente fundido.
Termino por considerar que é a Cultura integrada no Trabalho e Vida, o único modo de se ser cada vez mais Lúcido e Livre.
Ela não existe para enfeitar a vida, como alguns a vêem, mas para a «Transformar», tornando-a mais Clara e Justa, como nos diz empenhadamente a grande Poeta Sophia de Mello Bryner.
E perante a precariedade de tantos trabalhadores da cultura, tão empenhados e criativos em todas as áreas, como é possível ficar indiferente ao pouco valor e recursos materiais que lhes são atribuídos? Como imaginar o vazio e o sem sentido de vida, sem as artes e tudo o que é manifestamente Cultural?
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