terça-feira, 28 de maio de 2019
A CULTURA COMO «TRANSFORMADORA » DA VIDA
Filomena Leal
Lembro muitas vezes as lições do grande sábio Padre Manuel Antunes ( Prof. de Cultura Clássica), àcerca do conceito de Cultura em cotejo com o de Civilização.
E foi um útil ponto de partida para toda a minha vivência cultural através dos anos.
Assim, para mim Cultura é pensar pela própria cabeça, uma arma para combater o lugar comum, o banal, o preconceito e a indiferença, face à diversidade do real. É um Saber digerido, assimilado, relacionado e recriado. Exige muitas leituras, convívio com pessoas «vivas», olhando tudo e todos com olhar próprio, construído a partir da experiência e reflexão. É não ter preconceitos sobre a importância das coisas e até disponibilidade para pôr em causa o que hoje consideramos certo. Difere da erudição por muitas das dimensões de criatividade e até do fazer.
Assim, um médico competente tecnicamente, pode não ser culto. A frase de Abel Salazar «um médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe» ilustra bem isso.
Um professor que se preocupa só com a matéria a ensinar, sem interagir com os alunos noutras dimensões, não é uma pessoa culta. E a propósito, como professora que fui, vivi sempre esta profissão como fonte de aprendizagem com as sucessivas gerações que ia conhecendo. E como lembro brilhantes alunos
que tive! (em particular no ensino nocturno) com gente a trabalhar e a estudar simultâneamente (estudar era mesmo o 2º trabalho). E sinto-me grata por tudo o que com eles aprendi e o que com eles partilhei! (encontros ocasionais com alguns deles, ao dizerem: «as suas aulas, professora, eram diferentes», dão-me uma certa alegria , pelo reconhecimento).
Sempre procurei relacionar tudo com tudo - literatura, música, pintura, ciência, meios de comunicação, e ainda os grandes e pequenos nadas de que a vida é feita.
É este o meu conceito de Cultura, dispersivo aparentemente, mas integrador do Saber e construtor duma Visão do mundo pessoal. Não posso deixar de referir nesta minha construção cultural a Ética de vida legada pelos Pais e os fogachos de Progresso trazidos pelas Filhas, tudo mui reflectidamente fundido.
Termino por considerar que é a Cultura integrada no Trabalho e Vida, o único modo de se ser cada vez mais Lúcido e Livre.
Ela não existe para enfeitar a vida, como alguns a vêem, mas para a «Transformar», tornando-a mais Clara e Justa, como nos diz empenhadamente a grande Poeta Sophia de Mello Bryner.
E perante a precariedade de tantos trabalhadores da cultura, tão empenhados e criativos em todas as áreas, como é possível ficar indiferente ao pouco valor e recursos materiais que lhes são atribuídos? Como imaginar o vazio e o sem sentido de vida, sem as artes e tudo o que é manifestamente Cultural?
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