sábado, 28 de setembro de 2019
O INTERIOR E SUA CAMINHADA DO SILÊNCIO
Filomena Leal
Há uma tirada humorística do «Inimigo Público» que parece ser aquilo que os poderes políticos (e não só) esperam acontecer: «Metade do país em risco de desertificação vai tornar-se litoral populoso quando as alterações climáticas aumentarem o nível do mar».
Mas depois de ouvir alguns discursos de forças com alguma influência em Lisboa, a acharem mal empregue os poucos recursos de programas específicos para regiões de baixa densidade, não espanta que as portagens nas auto-estradas do Interior sejam as mais caras, que os futuros médicos da UBI tenham de sair para prova de acesso à especialidade e retirem serviços básicos tão necessários e mesmo indispensáveis às populações residentes, de que a luta dos habitantes de Almeida contra o encerramento do balcão da Caixa mostrou o chocante e indiferente desdém do poder político.
Face a uma vila desertificada e umas centenas de moradores com autarca em desespero, pelo efeito socio-económico que tal medida viria a ter no seu concelho, já tão empobrecido, as vozes de indignação nenhum eco tiveram.
Tudo isto tem a ver com frases fatalistas àcerca desta fracção maioritária do país como a que se leu no Público ainda recentemente: «...assumir também que em porções importantes do nosso país, coesão territorial significa gerir o declínio e portanto significa assumir que há partes do nosso território onde não vai ser possível recuperar população e actividade económica»(Ana Abrunhosa).
E é assim que a caminhada silenciosa do interior continua. E este silêncio começa a ensurdecer. O clamor das vozes vai-se calando, esgotado e sem forças, frente ao Grande Poder Central, indiferente ao desiquilíbrio e escandalosas desigualdades do País. Uma das vozes que desde sempre se tem batido pela melhoria das condições de vida das populações destas «tão remotas paragens» - o Jornal do Fundão - é quem ainda continua a resistir e a não deixar fugir de todo a esperança. O seu mais recente programa Interioridades mostra bem todo o valor desperdiçado das «aldeias», fieis depositárias da nossa memória colectiva e a precisarem com urgência dum futuro que querem negar-lhe.
Só alguém com coragem e desprendimento do poder (os votos, senhores, os votos! como viver sem apoiar o grande e populoso eleitorado do litoral?) talvez ainda conseguisse «equilibrar o barco». Contudo, o tempo passa e o «atraso» vai sendo sempre cada vez mais irreversível...
Como é triste viver num país tão desiquilibrado porque mal gerido!
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