quarta-feira, 20 de abril de 2022

A VIVÊNCIA REVOLUCIONÁRIA («escrevivida»no pós 25 de Abril de 1974 )

 

                                                                                                                   Filomena Leal

Evoco mais uma vez e agora NOS 50 ANOS DO 25 DE ABRIL DE 1974 o que escrevi na fase do meu envolvimento revolucionário e o deslumbre face à LIBERDADE e a todo o ambiente pleno de realizações sonhadas e outras... sentidas como possíveis.                    

Também a coincidência daquele momento subjectivo, resultado duma evolução pessoal, com aquele momento histórico, tornou tudo extraordinariamente mágico. Tudo o que vivi neste período está na Carta ao meu Pai, que eu quis e continuo a querer recriar na memória imaginária, fazendo-o existir narrativamente.

A Poesia está na rua. As palavras correm como gentes, livres, soltas. A alegria e a glória dum Acontecer difícil de contar, porque demasiado vivo. É um ABRIL pleno. De sonhos possíveis, de esperanças ousadas, de mudanças urgentes. É todo um Futuro a vibrar de Promessas.

É de ti que me lembro, Pai, neste tempo de renascimento e surpresa permanente. É contigo que quero partilhar, através da escrita, tudo o que de exaltante estou a viver. É A libertação, o prazer desamarrado. E rimos, sim, rimos com vontade de viver a vida que Abril nos trouxe. (.......)                                                        Os tempos são históricos, intensos, únicos, diferentes da vida normal e morta que tínhamos vivido até aqui.                                 (........)Vivemos pouco em casa, porque as ruas e as gentes da Cidade nos chamam. Urge limpar o bolor acumulado durante tantos anos de ditadura. O Espaço público atrai, faz-nos saltar deslumbrados para a Festa da Revolução.(............)                           Escrevo em folhinhas soltas. Tomada por vezes de vertigem. É que se espero, arrisco-me a deixar passar o importante! E sempre mal instalada... A escrita exige Energia e cadeira almofadada tira-a...                                                                              Canções revolucionárias ouvem-se e ecoam por toda a Lisboa - são as mais adequadas ao espírito do tempo. A canção chilena «O Povo Unido Jamais Será Vencido» duma beleza tocante, provoca-nos um sentir revoltado de dor e solidariedade. O povo chileno fora vítima dum golpe militar fascista, movido pelo atroz e sanguinário Pinochet em 1973. E faz-nos cantar com mais gratidão a nossa fraterna canção de Abril onde «o povo é quem mais ordena» e assim tem sido. De facto, foi o povo a atacar a sede da Pide e a exigir a libertação dos presos políticos, uma das cenas mais emocionantes da Revolução. E o fim da guerra do Ultramar teve muito a ver com o grito d'alma feito slogan «NEM MAIS UM SOLDADO PARA AS COLÓNIAS». E o momento chave da rendição do ditador, no quartel do Carmo? Como teria sido sem o povo de Lisboa, apinhado no Largo e a pressionar, ansioso, o grande Acontecimento? E sempre...sempre... as forças populares a actuarem no grande palco da Cidade... Também não deixamos de apoiar calorosamente os Capitães de Abril a quem devemos, pela coragem e competência, a grandeza e alegria desta Revolução de cravos.                                                                         E a palavra JÁ tem sido marcante na aceleração dos momentos históricos. Exige-se quase o impossível, porque se quer JÁ. E eis que descolonização e independência das Colónias é já uma realidade. E levas de retornados  fogem ao terror racista. Teria sido uma negociação adequada? Talvez a possível...                        Mas algo me faz lembrar de ti: é a «Cintura industrial de Lisboa» com os seus milhares de operários em desfile, com fatos de ganga e capacetes de aço ...a evocar o ambiente em que vivíamos  - ferro, aço, ferramentas, máquinas e, para além das dezenas de operários, a imagem do patrão-operário, vestido também de ganga, a assistir ao início do trabalho.                              E a agitação no meu liceu é enorme. Alunos e professores com empenhamento e militância, fazem crer que as escolas nunca mais poderão voltar a ser o que eram. Exposições interdisciplinares, visitas de estudo a jornais, a fábricas e até a Cooperativas Agrícolas, passaram a ser feitas com frequência. É a aposta num ensino dialéctico em que o Trabalho Manual seja cada vez mais valorizado e enriquecido no contacto com o mundo Cultural. A Reforma do Ensino está em marcha. Tudo afinal, nos parece realizável e um mundo novo possível.                  Contudo, é o trabalho de «escavar» sempre e mais, reflectindo em tudo que está a acontecer, que acaba por me libertar do excesso de circunstancialismos e cultivar aquela filosofia do «juste milieu», solidária mas sem dogmatismos.                                Como diz a canção de Ermelinda Duarte tão popular «Somos livres/Somos livres/De voar» é esse o grande e eterno valor da inigualável Revolução de Abril e que sempre perfilharei.


                           



 

                        





                                                                                                                    

                    

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