domingo, 14 de janeiro de 2018

O PEDALAR FRENÉTICO DO MEU VELHO TIO




                                                                                               Filomena Leal


Foi tarde que o reencontrei. Bateu-me um dia à porta com 90 anos. Viera do Barreiro ( onde vivia) nos transportes públicos. A memória dele não o enganara. A rua e número estavam certos.
Conversou muito sobre histórias de família e do seu passado em Loriga. E continuou a vir sempre - durante anos - eu era toda ouvidos.
A última vez falou-me da sua viagem de bicicleta de véspera. E foi extraordinário o que me foi contando desse trajecto.
Lembrava-se daquela namorada que tivera, com cabelo preto e tez dum branco luminoso. À porta de casa, um beijo ardente que ela aceitou. Era Inverno, havia orvalhada e a sua pele era duma humidade que acalmava - dizia ele.
Mais tarde dançou com ela e enquanto dançavam, parecia que o prazer da colagem das faces se introduzia nos seus músculos de velho e fazia andar Veloz a sua bicicleta.
Como ele vivia este sentir, ao contar o que ia pensando nesse
frenético pedalar!.
Beijos e apalpões, respiração ofegante - de tudo isso ele falou, concluindo que foi tudo pouco e até terminara. Um namorico adolescente que lhe ficou gravado e o fizera sofrer.
Não se cansou de me dizer que fora o passeio de bicicleta mais entusiasmante que ele dera. É que se sentira a viver toda aquela realidade do passado...
Mais tarde telefonou-me já adoentado, o médico tinha-o proibido de andar de bicicleta.
Nunca mais o meu saudoso tio me tocou à porta.
Desapareceu, mas « ouço-o muitas vezes a contar-me as suas aventuras».



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