Filomena Leal
A Memória é um casarão inesgotável de
vivências. E elas disputam entre si a entrada no palco do presente.
Umas mais recentes, outras mais antigas,
mas todas elas espreitam o momento oportuno de serem lembradas e «vividas».
Ao ler as Crónicas de António Lobo
Antunes, é todo um mundo de lembranças sentidas no presente como «eternamente»
reais.
O tempo passou mas fez inúmeras
paragens em múltiplos lugares, pessoas e acontecimentos. E é o presente e
também o futuro (um contínuo presente) que dará nova vida a tudo o que a
Memória (por vezes com pequenos laivos de ficção) registou.
Assim, e lendo as lembranças felizes
umas, dolorosas outras, de Lobo Antunes, penso que ele deve realmente ouvir a
voz das tias a chamarem-no, o tinir dos rebanhos a passarem, o silêncio de
muito dizer nos encontros com José Cardoso Pires. E, de certo, aquele sentir
doloroso do último abraço do irmão João que ele considera único no mundo e vai
acontecer inúmeras vezes.
De acordo com tudo isto, as pessoas queridas e preciosas que, no
decorrer de 2016 (e ao longo dos tempos) desapareceram, com grande pesar nosso,
ao serem lembradas, continuam a ser vistas, ouvidas e apreciadas, como se duma
«simples» ausência se tratasse.
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