terça-feira, 2 de janeiro de 2018

LEMBRAR UM PASSADO SENTIDO COMO PRESENTE



                                                                        Filomena Leal


A Memória é um casarão inesgotável de vivências. E elas disputam entre si a entrada no palco do presente.
Umas mais recentes, outras mais antigas, mas todas elas espreitam o momento oportuno de serem lembradas e «vividas».
Ao ler as Crónicas de António Lobo Antunes, é todo um mundo de lembranças sentidas no presente como «eternamente» reais.
O tempo passou mas fez inúmeras paragens em múltiplos lugares, pessoas e acontecimentos. E é o presente e também o futuro (um contínuo presente) que dará nova vida a tudo o que a Memória (por vezes com pequenos laivos de ficção) registou.
Assim, e lendo as lembranças felizes umas, dolorosas outras, de Lobo Antunes, penso que ele deve realmente ouvir a voz das tias a chamarem-no, o tinir dos rebanhos a passarem, o silêncio de muito dizer nos encontros com José Cardoso Pires. E, de certo, aquele sentir doloroso do último abraço do irmão João que ele considera único no mundo e vai acontecer inúmeras vezes.

De acordo com tudo isto, as pessoas queridas e preciosas que, no decorrer de 2016 (e ao longo dos tempos) desapareceram, com grande pesar nosso, ao serem lembradas, continuam a ser vistas, ouvidas e apreciadas, como se duma «simples» ausência se tratasse.

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