terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

RELAÇÃO CRIADOR/PERSONAGENS




                                                                Filomena Leal


Quando as personagens surgem, começam a fazer parte da vida do escritor. É como se fossem pessoas vivas. 
Ao ver recentemente uma exposição de Rodin, veio-me à ideia a personagem da Casa dos Seniores, o escultor Ferreira que  considerava aquele, um dos seus grandes Mestres. Não vi as Mãos que tanto interesse criativo despertaram no grande escultor e também na minha personagem. Mas evoquei a tragédia de Ferreira, quando ficou acidentalmente sem uma Mão, o que o aproximou ainda mais de Rodin que teve problema idêntico.
E penso como vivi e acompanhei todo o seu trauma e a maneira exemplar como o ultrapassou.
Afeiçoei-me a esta personagem e tive pena quando, ao acabar o livro, dela me separei. De igual modo, senti imensas saudades do Violinista Graça, da sua presença discreta e da música divinal de Mozart que tocava, debruçado no violino. O ambiente por ele criado, era para mim e muitos dos residentes, cheio de magia. Fez-me falta. 
Outras personagens (e havia muitas na Grande Casa) com quem muito dialogava, me provocaram um grande sentimento de perda. Foram-se todas embora - seguiram o seu caminho. Fiquei sem elas.
Mas o vazio que senti, não podia durar muito.
E eis que, num dia de nevoeiro denso e ar gélido, me surge a personagem Madalena a despertar-me, de imediato, profundo e centrado interesse. O que a caracteriza desafia-me o pensar imaginário. Contudo, será a Escrita, no seu trabalho dissecador da palavra, que a irá definir e adensar como criatura pensante e a querer libertar-se dos códigos sociais que a oprimem. Estou a aperceber-me que se trata dum ser complexo, em grande conflito consigo mesma e a imagem construída perante os outros. 
A sua actuação no papel já começou - movida por uma sensualidade apaixonada e vibrante pelo outro, quase «mística». Irei ter, de certo, muitos problemas com ela, não será pacífica a nossa relação, até porque a teia de relações com outras personagens diferentes e redondas, vão carecer de muita atenção e criatividade da minha parte, para resolver toda a problemática dum enredo verosímil.
Como será possível não me afeiçoar a toda elas, se é com elas que vou construindo a minha própria e imaginária Realidade,
numa luta/labuta do dia a dia?
    

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