domingo, 31 de março de 2019

AINDA SOBRE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


                                              Filomena Leal


Reli o livro de Cristina Silva - A Mulher Transparente. Senti o mesmo que há anos, ao lê-lo pela 1ª vez. Mas agora, com mais conhecimento de toda a extensão trágica deste problema.
Sinto-me ela, a vítima, a viver diária e continuamente com as malfeitorias dum agressor que, possuindo-a como objecto, tanto a pode enlaçar como pontapear, deixar-lhe o corpo ferido e a sangrar até chegar ao limite máximo de o destruir.
E não posso deixar de citar o impressionante e realista início do livro atrás referido ( e que denota para além de tudo, uma profunda violência psicológica, fruto dum  medo terrífico ao senhor e dominador): « O meu marido abriu a porta da rua ( e o eco do seu estrondo, ao fechar-se, propagou-se pelo escuro até ao meu quarto). As botas vão subindo as escadas. Rangem por um trilho que segue o seu curso até ao palpitar agitado do meu coração. Cada passo encena a cadência de um exército em manobras de marcha... Mais um degrau transposto e o meu marido reduz a distância que o separa de mim..(...) A raiva latente que o domina é livre para expôr a sua fúria em nódoas negras pelo meu corpo. Quando acaba de me bater...(...)Os olhos brilham, atiçados pelo tropel furioso de uma emoção de poder.
«Puta de merda, pensas que me enganas» grita ele, antes de restituir ao meu terror os gemidos dos seus fantasmas»
E é o ciúme (e o quê mais?não se sabe bem...), o sentimento de posse, na sua versão mais primitiva, a enformar a mente doentia destes homens (ainda há quem ingénua? ou romanticamente? consiga chamar a isto «amor»desmedido, naturalizando, afinal, tal comportamento!!!) Sabemos, contudo, que se trata de todo um sistema cultural, assente na própria justiça que desculpa o agressor e culpa a vítima, por ter comportamentos considerados humilhantes para o homem e, como tal, merecedores de castigo (não é um juiz que, ao reduzir a pena suspensa a 2 agressores violentos, argumentava que na Bíblia se diz que «a mulher adúltera deve ser punida com a morte»?) Conformismo ancestral?
É URGENTE QUE O ESTADO AMPARE ESTAS MULHERES (pois quem mais lhes poderá valer?) e compete-nos a nós, sociedade civil, dar-lhes apoio e força para irem a uma esquadra e enfrentarem todo o labirinto jurídico que actualmente as envolve.
TAMBÉM NÃO PODEM SER ESQUECIDAS AS CRIANÇAS QUE ASSISTEM A FREQUENTES CENAS DRAMÁTICAS OU SOFREM A MESMA VIOLÊNCIA DAS MÃES. SÃO MARCAS TRAUMÁTICAS QUE AS ACOMPANHARÃO, DECERTO,TODA A VIDA.  

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