Filomena Leal
Inspirado numa realidade social de emigrantes portugueses deste século (quem diria!!!)na cidade inglesa Great Yarmouth, Marco Martins dá-nos uma visão dura e extremamente desumana do quotidiano destes trabalhadores. Beatriz Batarda é a actriz principal que actua como vítima e exploradora simultâneamente. E, face a tudo que precisou de fazer e exigir a todos os espoliados, humilhando-os e avilanando-os, desumanizando-se sem dó nem piedade, foi decerto necessário viver o dia a dia deles, para um autêntico desempenho. E o sistema explorador sem limites, de condições propícias a isso, deixa-nos sem fôlego, porque parecia impensável no nosso tempo. Mas a verdade é que já não existem valores, modelos, é toda uma realidade crua, só ela existente e sem qualquer possibilidade de mudar. Sem esperança. Um desespero mudo, desumanizado e desumanizante. Quão distante está, apesar de tudo, aquele realismo da emigração dos anos 50, em que a Esperança numa vida melhor norteava e dava alento aos nossos emigrantes, sem lhes tirar dignidade e até por vezes um sentir heróico. Hoje, para situações dessas, o sistema é implacável, e as pessoas transformam-se à medida do que ele exige - Humanos irreconhecíveis como tais.
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