terça-feira, 21 de março de 2023

A SÁBIA E JUSTA VISÃO DE JESUS CRISTO EM RELAÇÃO ÀS MULHERES

 

                                                                                      Filomena Leal              


Sempre vi Jesus Cristo nas várias fases da minha relação com a Igreja, como o grande e inspirado questionador das graves e violentas injustiças do seu tempo. Através da Palavra (inserida muitas vezes em parábolas e histórias com fundo real) e atitudes hoje consagradas em direitos fundamentais da pessoa humana, opôs-se a muitos dos costumes estabelecidos na própria religião e no Império romano em geral. Daí ser mal visto e propagandeado como alguém perigoso para o fundamentalismo religioso judeu e para o próprio poder pagão. (É de lembrar uma passagem imaginária de Dostoievsky na célebre obra de «Os Irmãos Karamazov». Jesus aparece uma vez mais e o responsável da Inquisição manda prendê-lo. Vai falar depois com ele à prisão e diz-lhe: «a tua palavra é incómoda. Nós não a podemos ouvir. Agora ficamos nós no teu lugar»)

No contexto desse seu tempo, a mulher era um ser ínfimo, sujeito a todas as descriminações. É lapidar a frase de Jesus face à incriminação da mulher adúltera (que seria apedrejada, segundo as leis): «Quem não tem pecados que atire a 1ª pedra»(Evangelho de João). Prega assim a igualdade de género que mesmo hoje, ainda não é real. E embora houvesse problemas em a Igreja Católica aceitar este episódio, com o tempo passou a ser considerado canónico. E porquê? Terá sido porque a mulher adúltera foi associada à suposta pecadora Maria Madalena, considerada por estudos não reconhecidos pela Igreja a «Apóstola dos Apóstolos»? Também o desaparecimento do Evangelho de que ela seria autora e foi descoberto no século XIX sem algumas páginas, virá dessa resistência da Igreja? A verdade é que depois disso, ainda ficou perdido até 1955. Também o facto de Pedro ficar despeitado por ter sido Maria Madalena a eleita para anunciar a Ressurreição, porque foi ela a 1ª pessoa a ver o Cristo ressuscitado, ajuda a perceber as reservas da Igreja institucionalizada relativamente a Maria Madalena e às mulheres em geral.

No entanto, é nos Escritos Apócrifos publicados recentemente por Frederico Lourenço e por ele traduzidos, que está contido muito daquilo que Jesus defendia e praticava e é o Cerne do Cristianismo. E vemos aí Jesus nas várias situações - à mesa, em casa,, no templo - a romper com ideias feitas, aparências, exclusão de subalternos, entre estes a mulher. E esta, com o direito de se dedicar a tarefas consideradas apenas de homem como o domínio da Palavra, em detrimento dos habituais trabalhos domésticos (uma cena em casa de Maria e Marta ilustra bem o que pensa neste domínio).

Também os primeiros cristãos têm a noção clara de que as mulheres ocupavam e a isso tinham direito, um lugar igual ao do homem (a Mãe, a discípula/Apóstola Maria Madalena, as irmãs Maria e Marta e as poderosas Joana e Susana - todas influentes no Movimento que terá surgido, a par doutros mais tarde e liderados por mulheres). Nestes encontros terá havido acesos debates sobre o lugar da mulher na Igreja. 

Porquê serem ainda hoje excluídas da ordenação e de outros cargos hierárquicos da Instituição?

Leio Frei Bento Domingues, o Cardeal Poeta Tolentino Mendonça e mais recentemente o genial tradutor do Antigo e Novo Testamento e dos Evangelhos Apócrifos - Frederico Lourenço - e todos eles falam na relação justa e sem descriminações de Jesus com as mulheres. E a verdade é que foram elas que sempre o acompanharam, entenderam e lhe foram fieis como testemunhas da sua Palavra e práticas de vida.

Mas eis que surge um Papa, o Sumo Pontífice da Igreja, que quer posicionar a mulher nos lugares a que tem direito como ser baptizado e cristão, tal como o homem. Procura seguir Cristo também na apreciação que faz desses seres, com uma inteligência muito própria e mesmo geniais em algumas tarefas. E não teoriza apenas: tem nomeado mulheres para cargos de grande visibilidade e liderança dentro da Igreja. Nos 6 cargos de leigos, nomeou 5 mulheres e 1 homem  que, segundo ele, «começaram a funcionar melhor talvez devido à capacidade específica da mulher em administrar determinado tipo de coisas» Também a vice-governadora do Vaticano é uma mulher.

Dar a Palavra à mulher em cargos decisórios da Igreja, é pois, algo que se impõe. Renovar e daí seguir o Mestre no seu estilo e comportamento, é afinal o défice desta Igreja, cujos Valores, apesar de tudo, nesta actualidade materialista com ideias hiper consumistas, mas carente de Paz e Justiça, são essenciais.     

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