segunda-feira, 20 de novembro de 2017

UM APELO INESQUECÍVEL

                                    
                                                                      
                                                   Filomena Leal


Foi na aula de Linguística do dia 26 de Novembro de 1967.
Havia muitos alunos no Anfiteatro, ansiosos como sempre por alargar os horizontes linguísticos com o nosso prestigiado Professor Lindley Cintra. Ele entra e, deveras emocionado, diz: (com outras palavras mas de igual conteúdo)
«Meus Senhores, estamos a viver UMA GRANDE TRAGÉDIA na Região de Lisboa e Vale do Tejo. As chuvas Torrenciais desta Longa e Negra Noite, arrastaram na enxurrada barracas e centenas de Pessoas que nelas viviam. Temos que cuidar dos Sobreviventes e de tudo o que eles precisam. É nosso Dever CÍVICO APOIAR COM URGÊNCIA as Vítimas, e APELO neste momento, para a vossa SOLIDARIEDADE de jovens Generosos e Preocupados com o que se passa no seu País
A maioria levantou-se de imediato para se dirigir onde era preciso, mas o CHOQUE com a Realidade foi brutal. Não faziam ideia das condições Miseráveis em que muita Gente à volta de Lisboa vivia.
Foi o Acordar Político-social de grande parte destes jovens, na Luta contra o regime de Salazar que procurou ocultar tudo o que o pusesse em questão (como se já não estivesse condenado há muito!)
Assim, os jornais que começaram por dar notícia dos terríveis dramas a que assistiam, tiveram de se calar – tudo o que aludisse à catástrofe e morticínio era censurado e cortado, incluindo as Actividades Beneméritas dos Estudantes (por isso ainda hoje se não sabe ao certo se morreram 400, 500 ou 700 Pessoas).
Apenas o Comércio do Funchal, semanário da Oposição, conseguiu levantar em 10 de Dezembro do mesmo ano, o essencial da questão:
«Se as barracas fossem verdadeiras casas, teriam sido arrastadas pelas águas
E o Solidariedade Estudantil, boletim dos Estudantes que se organizaram para apoiar as populações afectadas, pôs em relevo as estatísticas do Serviço Meteorológico que mostravam ter chovido mais no Estoril, zona rica de Cascais, onde não houve mortos, nem danos materiais de monta.
Todo o fatalismo defendido pela ditadura, caía assim por terra.
A IMPRENSA ACTUAL (que seria da nossa Memória sem os jornais?) LEMBRA AGORA ALGUNS DETALHES REGISTADOS DO FUNESTO ACONTECIMENTO, CONSIDERADO TALVEZ O MAIOR DESASTRE OCORRIDO EM PORTUGAL, APÓS O TERRAMOTO DE 1755.
EU, LEMBRO O APELO DE MESTRE DO SAUDOSO PROFESSOR LINDLEY CINTRA, E TODO O COMPORTAMENTO CÍVICO QUE DESENCADEOU.
Foi no Novembro de há 50 anos.




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