quinta-feira, 8 de março de 2018

O TEMPO, UM IMPARÁVEL CORREDOR



         

                                                              Filomena Leal


Preocupada com a aceleração vertiginosa do Tempo, pus-me a reler algumas passagens sobre o tema, no Livro do Desassossego de FERNANDO PESSOA. Sinto o mesmo em inúmeras situações da vida. Mas a expressão dele é sempre genial. Por isso, transcrevo:
«Tenho fome da extensão do tempo.
Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei 6 dias, a própria sala triste de espera da estação de caminho de ferro onde gastei 2 horas à espera do comboio. 
Sim, mesmo as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafísicamente.
O tempo! O passado! Aí, algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional, levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações.  O que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos que me amaram na minha infância! Quando os evoco, toda a minha alma esfria e sinto-me desterrado, sòzinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.»

                  
                                    





                                                    

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