sexta-feira, 13 de abril de 2018

ASSÉDIO

      Armando Leitão   

Roque era pacífico cidadão, introvertido, zeloso cumpridor como escriturário de empresa industrial. Dispunha de excelente cursivo, desenhava a primor  letra gótica e francesa e, perante estas qualidades, estava-lhe destinada a tarefa de escriturar  Diário e Razão no tempo em que estes magnos livros da contabilidade exigiam tais esmeros.
Na mesa de trabalho, aberta, oposta à sua, sentava-se Ildefonso, já avançado na idade, à beira da reforma que não tardou. Para o lugar do    Ildefonso a empresa despachou a telefonista Zilda, satisfazendo assim o seu insistente pedido para um lugar na Secretaria para o qual se julgava vocacionada.
À Zilda sobrava-lhe em formas e beleza física o que lhe faltava em talento para os complexos mistérios da contabilidade. Alta, morena de lábios carnudos, sensuais, peito de afrodite, elegante, pernas bem moldadas desde a base, a  natureza tinha sido pródiga com o seu corpo. Mas Zilda  errava, frequentemente, as contas e demorava eternidades a acertar, nos  balancetes, débito e crédito.

Roque, com infinita paciência, ajudava-a e  nem sequer reparava, não queria reparar,  que as pernas de Zilda, mesmo à sua frente, abriam provocadoramente e também não reparava, não queria reparar, nos mamilos impantes quando debruçada sobre a  mesa de trabalho ela pedia explicações sobre o fecho  da folha de férias.
Roque, não obstante  toda a sua aparente indiferença ia  constatando, não podia deixar de constatar, que: as saias de Zilda subiam na mesma medida em que o decote do vestido descia, a ponto de poder ver, claramente, o que se escondia nas combinações
Para fugir a tentações, desviava  olhares e o pensamento   ia todo para a  sua querida Ermelinda e rór de filhos que tinha lá em casa.

Mês após mês, Zilda persistia em olhares libidinosos, procurava, anciosa,  compreensão e benevolência para sucessivos erros que levavam dias a corrigir. Um dia, ao pedir explicações sobre matéria tributável, aproximou-se mais do superior hierárquico e, subtilmente, encostou a coxa à coxa de Roque. Este, enebriado pela carne e perfumes, desesperado, perdido, enlaçou-a pela cintura e despejou beijo sôfrego em peito arfante.

Zilda repeliu-o daquela maneira meiga que as mulheres teem de repelir quando só pretendem que as agarrem e, em desequilibro, caiu ao chão e Roque, por arrastamento, tombou sobre o seu corpo. Zilda soltou um grito de dor (ou de prazer) que mobilizou para o local todo o pessoal de escritório, que ao ver os dois naquela posição comprometedora, não queria acreditar que  pessoa  pacifica como o Roque se atrevesse a violar, ali, daquela  forma, a colega de trabalho.

Chamado à Gerencia, Roque não enveredou por desculpas tolas. Assumiu que enlaçou Zilda pela cintura, beijou-a no peito, numa tontaria de perdição. Zilda, com grande desassombro, contou que:  Roque era um senhor e não lhe interessava saber  se  o seu acto foi ou não premeditado; o que não compreendia  é que ele apenas a olhasse como escriturária e não a admirasse como mulher, tal como acontecia com todos os outros homens; foi verdade que encostou as suas pernas às pernas do  Roque apenas por imensa curiosidade, curiosidade irreprimível de ver como é que reagia, a quente, aquele homem de sangue tão enervantemente frio; o que aconteceu depois foi apenas trambolhão e não aquilo que  pessoas  maldosas pensaram.

       O médico da empresa opinou que naqueles momentos patéticos ou sublimes é a natureza e não as pessoas quem  comanda as acções.

       Perante tão abalizada opinião a Gerencia decidiu colocar os dois escriturários em secções diferentes  e arquivou  a questão.



Neste  caso tão simples e natural quem assediou quem?

Quando hoje, numa era de liberdade e libertinagem sexual,  fundamentalistas do templo,  puritanos de parlamentos,  altas esferas sociais e do estado, jornais, rádio e televisão de todo o mundo, se esforçam  por teorizar o inteorizavel assédio sexual, trago este contributo às atormentadas consciências que conferem grau prioritário à figura jurídica do assédio e relegam para segundo plano guerra, fome,  desemprego, poluição, droga,  violências e injustiças que se passeiam neste imenso jardim zoológico que é o  mundo.



Armando Reis Leitão

1980

1 comentário:

  1. Considero a opinião do médico um pouco excessiva, pois há sempre maneira do homem se controlar.

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