Armando Leitão
Roque era pacífico cidadão, introvertido, zeloso cumpridor como escriturário de empresa industrial. Dispunha de excelente cursivo, desenhava a primor letra gótica e francesa e, perante estas qualidades, estava-lhe destinada a tarefa de escriturar Diário e Razão no tempo em que estes magnos livros da contabilidade exigiam tais esmeros.
Na mesa de trabalho, aberta, oposta à sua, sentava-se Ildefonso, já avançado na idade, à beira da reforma que não tardou. Para o lugar do Ildefonso a empresa despachou a telefonista Zilda, satisfazendo assim o seu insistente pedido para um lugar na Secretaria para o qual se julgava vocacionada.
À Zilda sobrava-lhe em formas e beleza física o que lhe faltava em talento para os complexos mistérios da contabilidade. Alta, morena de lábios carnudos, sensuais, peito de afrodite, elegante, pernas bem moldadas desde a base, a natureza tinha sido pródiga com o seu corpo. Mas Zilda errava, frequentemente, as contas e demorava eternidades a acertar, nos balancetes, débito e crédito.
Roque, com infinita paciência, ajudava-a e nem sequer reparava, não queria reparar, que as pernas de Zilda, mesmo à sua frente, abriam provocadoramente e também não reparava, não queria reparar, nos mamilos impantes quando debruçada sobre a mesa de trabalho ela pedia explicações sobre o fecho da folha de férias.
Roque, não obstante toda a sua aparente indiferença ia constatando, não podia deixar de constatar, que: as saias de Zilda subiam na mesma medida em que o decote do vestido descia, a ponto de poder ver, claramente, o que se escondia nas combinações
Para fugir a tentações, desviava olhares e o pensamento ia todo para a sua querida Ermelinda e rór de filhos que tinha lá em casa.
Mês após mês, Zilda persistia em olhares libidinosos, procurava, anciosa, compreensão e benevolência para sucessivos erros que levavam dias a corrigir. Um dia, ao pedir explicações sobre matéria tributável, aproximou-se mais do superior hierárquico e, subtilmente, encostou a coxa à coxa de Roque. Este, enebriado pela carne e perfumes, desesperado, perdido, enlaçou-a pela cintura e despejou beijo sôfrego em peito arfante.
Zilda repeliu-o daquela maneira meiga que as mulheres teem de repelir quando só pretendem que as agarrem e, em desequilibro, caiu ao chão e Roque, por arrastamento, tombou sobre o seu corpo. Zilda soltou um grito de dor (ou de prazer) que mobilizou para o local todo o pessoal de escritório, que ao ver os dois naquela posição comprometedora, não queria acreditar que pessoa pacifica como o Roque se atrevesse a violar, ali, daquela forma, a colega de trabalho.
Chamado à Gerencia, Roque não enveredou por desculpas tolas. Assumiu que enlaçou Zilda pela cintura, beijou-a no peito, numa tontaria de perdição. Zilda, com grande desassombro, contou que: Roque era um senhor e não lhe interessava saber se o seu acto foi ou não premeditado; o que não compreendia é que ele apenas a olhasse como escriturária e não a admirasse como mulher, tal como acontecia com todos os outros homens; foi verdade que encostou as suas pernas às pernas do Roque apenas por imensa curiosidade, curiosidade irreprimível de ver como é que reagia, a quente, aquele homem de sangue tão enervantemente frio; o que aconteceu depois foi apenas trambolhão e não aquilo que pessoas maldosas pensaram.
O médico da empresa opinou que naqueles momentos patéticos ou sublimes é a natureza e não as pessoas quem comanda as acções.
Perante tão abalizada opinião a Gerencia decidiu colocar os dois escriturários em secções diferentes e arquivou a questão.
Neste caso tão simples e natural quem assediou quem?
Quando hoje, numa era de liberdade e libertinagem sexual, fundamentalistas do templo, puritanos de parlamentos, altas esferas sociais e do estado, jornais, rádio e televisão de todo o mundo, se esforçam por teorizar o inteorizavel assédio sexual, trago este contributo às atormentadas consciências que conferem grau prioritário à figura jurídica do assédio e relegam para segundo plano guerra, fome, desemprego, poluição, droga, violências e injustiças que se passeiam neste imenso jardim zoológico que é o mundo.
Armando Reis Leitão
1980
Considero a opinião do médico um pouco excessiva, pois há sempre maneira do homem se controlar.
ResponderEliminar