quinta-feira, 31 de outubro de 2019
«O LABORATÓRIO DE SONHOS» DE SARAH AFONSO (a propósito da exposição na Gulbenkian)
Filomena Leal
É só em 2019, no celebrar dos 120 anos da artista com 2 exposições, uma no Museu do Chiado e outra no Museu Gulbenkian que Sarah Afonso é lembrada com grande destaque. Porquê só agora?
Não será por acaso, que a artista entra nestas 2 Instituições museológicas por via de 2 mulheres que as dirigem - Penélope Curtis na Gulbenkian e Emília Ferreira no Chiado.
Já em vida, embora admirada pelos seus pares como pintora, nunca teve qualquer encomenda pública. A desigualdade de género brindou-a sempre através dos tempos, até que, na actualidade, porque existe mais atenção a esse problema e graças a mulheres com poder para isso, a sua Arte se tornou mais visível e apreciada.
É no Minho, onde vive com o pai, que ela pinta com grande força e elaboração, o povo e a paisagem da sua infância. São desse tempo Menina com Boi, Camponesa amamentando o Filho, obras de sabor neo- realista nas figuras femininas ligadas ao trabalho do campo. Mas foi em 1937, o seu «ano de ouro» com o Coreto, Casamento na Aldeia, Lavradeiras, Família, que ela se constroi artisticamente através do «laboratório de sonhos», o constante estímulo da sua Arte.
O casamento com Almada Negreiros e consequentes preocupações familiares, levam-na a assumir que não pode dedicar-se à pintura por falta de tempo e até de espaço. E acaba mesmo por desistir.
No entanto, não deixa de deslocar a sua criatividade para o contexto doméstico. E assim é no bordado, cerâmica, nas pequenas coisas do quotidiano, e mais tarde no próprio jardim da Quinta de Bicesse, onde ela se aplica de modo mais pragmático, compensando um pouco o vazio de não ter continuado com a pintura.
Menorizada pelos críticos esta forma de expressão, tal como o interesse pelas crianças (com retratos) e questões de género, é hoje vista como a «continuação lógica da diversificação artística que as vanguardas valorizavam» mas...nas obras de artistas homens. Nas de mulher artista, a origem e interesse é, segundo eles, de cariz emotivo e psicológico e, como tal, não é Arte.
COMO É POSSÍVEL TAL DESCRIMINAÇÃO?
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